21.9.16

Aquele horizonte que entretanto se perdeu


Chegámos a Shangri-la, nem sem a que horas, mas não foi a bom tempo. Os meus primeiros momentos foram de arrependimento, fica a confissão, para dar o mote. A gare rodoviária de Zhongdian foi a mais inóspita gare de todo o nosso mundo, que vai sendo cada vez maior. Cheirava muito pior do que a cigarro velho. Não havia sala para não-fumadores e ninguém parecia importar-se com o que se escreve nos pacotes de cigarros na nova Europa. Recordei-me da gare de Setúbal como se fosse a minha madeleine de Proust. Do outro lado do globo, na minha memória certamente danificada, chegar ao terminal rodoviário de Setúbal fazia-me lembrar entrar numa sala de uma tia-avó particularmente prendada em bolachas de manteiga, que insistia para que tomasse mais uma taça de chá.
Não tinhamos qualquer indicação de distância entre a gare e o centro, ninguém sabia falar inglês e os motoristas de táxi, todos vestidos de preto e com um cigarro no canto do lábio, queriam levar-nos as malas para dentro de 4 bagageiras diferentes. Estavam tão excitados com a nossa chegada que tivémos a certeza que íamos ser enganados. Recusámos a ajuda forçada de todos, com mais ou menos sorrisos, consoante a maior ou menor insistência.

Sentámo-nos nos bancos azuis de plástico duro da sala de espera,  ainda atrodoados do trajecto, a comer bolachas salgadas, que tinhamos comprado a pensar que eram doces. De vez em quando, um de nós levantava-se numa tentativa de estabelecer contacto verbal com alguém, e no regresso era recompensado com mais uma bolacha. Na verdade, o que estava em jogo eram apenas alguns euros a mais, que seríamos certamente cobrados pelo motorista de táxi. Mas não nos apetecia ser levados por tansos. Temos o nosso orgulho. E tínhamos muito tempo - é sempre mais fácil manter a dignidade, quando se tem tempo para isso.
Luxos.

Acabámos por decorar os caractéres que significam centro da cidade e apanhámos, mais ou menos às cegas, um autocarro. Saímos onde nos indicou o motorista, mas parecia que estávamos numa zona industrial com pavilhões de madeira. A estrada um caminho de lama.
Tinhamos lido que Shangri la era apenas um truque de marketing do hábil turismo chinês, que se tinha aproveitado dos poucos elementos do livro de James Hilton - Lost Horizon - para afirmar que ali é que era o verdadeiro Shangri la. O Stéphane tinha falado com um viajante que lhe tinha dito que a cidadela velha tinha ardido recentemente e que quase não havia nada a ver. Posto isto, eu disse que queria ir na mesma. Se a liberdade não foi feita se seguir impulsos e se cometer erros, então não sei para que serverá.

No caminho, vimos os arrozais omnipresentes a transformar-se em pastos verdes escuros, as pequenas casas brancas com telhado de telhas, em casas enormes ocres de arquitectura tibetana e os nossos primeiros Yaks a pastar, não sei a substituir o quê nem quem.
Pensei alto, para que todos me ouvissem no minibus, que nem que fosse pelo que viamos da janela já tinha valido a pena. Mas ninguém acordou.

Não sei se isto acontece a muita gente, eu gosto de pensar que sim, para não me sentir tão sozinha, que apenas não é um tema confissional na moda, mas que o nosso tempo vai chegar. A personagem tipica deste tipo de patologia que vos querofalar, é alguém que tem uma capacidade fora do normal para se deixar levar pelo wishful thinking. Acho que é assim que se fala nos livros técnicos americanos e do resto do mundo. Não sei, nunca li nenhum. O indivíduo em questão, passa tanto tempo a sonhar acordado que não consegue distinguir mais o que é realidade do que é o que ele quer que aconteça.
O meu nome é Carla Rodrigues dos Santos, sou uma interpretadora de factos, baseados no que quero que seja. Imagino como verdade o que não é. Acho que é algo hormonal. Sou uma vítima, portanto.

O autocarro, dizia, deixou-nos num terreno que eu julgava ser uma zona industrial, pelo que encaminhei a minha família para a estrada da esquerda, que me pareceu bem. Nesta viagem, às vezes, calhava-me a responsabilidade de estudar o próximo trajecto, saber se valia a pena ou não ir e levar a coisa em avante. O meu método científico de estudo e concretização é conhecido como improvisius.
Fui andando e perguntado onde era o centro, ignorando sempre as respostas, porque não me convinham, até que começámos a ter fome. Entrámos num café que tinha fotos do sítio onde eu queria estar, muito diferentes da estrada de lama onde me situava com a minha família e entrei disposta a aceitar o prato do dia. Tenho amor à aventura.
A um canto, o filho da dona do restaurante, brincava com legos falsificados e prontamente aceitou partilhá-los com os meus filhos. O mito do egoísmo da criança única é mesmo um mito.
Tive que ouvir um comentário sarcástico em francês de como era admirável a minha forma de educar os meus filhos para o inesperado e dei de comer às bocas que me rodeavam, com dumplings bastante aceitáveis. Em português parece que se diz bolinhos de massa de pão, não podia pensar em tradução mais deslavada.
Quando saímos começava a ficar frio e escuro, e aceitámos o primeiro quarto sem janela que encontrámos disponível.

Quando acordámos e depois de tomármos um pequeno-almoço igual ao jantar e da minha filha ter deixado um desenho num post-it colado à parede, fomos ao enorme moinho de preces dourado que víamos da rua.
O meu filho continuou a sua estranha incursão mística-motriocinal num universo muito dele, baseado nos rituais religiosos. Se na India tinha sido hindu-praticante-não-crente, na China seria budista-praticante-não-crente. Acreditaria que tal fosse sacrilégio, fosse eu dada a acreditar.
Aquele enorme moinho de preces dourado precisava da força de sete pessoas para se mexer, com os meus filhos, nove. Mas eles não tiveram noção da sua nulidade ritual. Acreditaram que contaram para enviarem mantras  para os ares, e tendo em conta que estamos a falar de religião, acho que isso é o essencial.

A aldeia, para além daquela colina com o templo budista e um moinho, tinha um interesse relativo, restaurantes de pão de vapor, alguns albergues. Saíndo do centro, as casas deixavam de ser tradicionais em madeira, para passarem a ser francamente feias, mas as pessoas mais acolhedoras e interessadas em nós. E um pouco de atenção, por vezes, fica bem.

Numa galeria de arte tradicional tibetana, conhecemos um estudante de Chengdu que falava inglês e nos explicou que havia uma associação no andar de cima, que promovia a tradição tibetana e que tinha contactos com locais que viviam naquelas aldeias com casas enormes tibetanas que tínhamos visto na viagem. E foi assim que nos dirigimos a Bulum. Na verdade, só depois é que descobrimos que se chamava assim. Copiámos os caractéres chineses e mais tarde procurámos no Google para sabermos onde tínhamos estado. Apalpadelas.
A aldeia devia ter umas vinte casas, todas de um tamanho desmesurado. Sentiamo-nos anões num mundo de gigantes. Fomos recebidos por um casal de uns cinquenta anos, talvez setenta, nunca fui boa a calcular a idade dos outros, no campo sou ainda mais desastrosa. Com eles estava a nora que falava três palavras de inglês. As que deviam ser úteis para os aventurados que por vezes vinham dormir na casa grande : mother-in-law, food e thank-you.
A casa grande, saída de um filme de época e distante, era essencialmente para nós, eles dormiam num minúsculo anexo, mais fácil de aquecer e de aceder. Foi lá que tomámos o pequeno-almoço mais marcante da nossa viagem. Um pequeno-almoço à base de leite de Yak. Foi duro. O casal era muito simpático e tomou o pequeno-almoço connosco, o que nos dificultou a tarefa. De cada vez que que acabávamos algo, uma das mulheres levantava-se e dava-nos mais. Os meus filhos diziam por favor, please, mais não e era exatamente esta última palavra que as nossas anfitriãs não percebiam. O chá era bom, não fosse o leite de yak que lhe tinham acrescentado. O yogurte era bom, se não fosse enriquecido com leite de Yak. As galetas eram boas se não tivessem a tal iguaria. O Stéphane disse-me que se lhe dessem mais uma pinga de leite de Yak que chorava, pareceu-me sincero. Os meus filhos interessaram-se pelos gatos e abandonaram a refeição a meio. E eu sofri em silêncio e sorrindo. A família que nos acolhia comia com prazer e eu conhecia os meus limites à minha lendária facilidade gastronómica. Intrigava-me como podiam estômagos da mesma espécie animal serem tão diferentes.

O homem estava sentado num banco rasteiro afastado do forno no meio da sala, estava virado para a televisão.  No écran passava um filme chinês onde a cada minuto morria o equivalente à população de Yunnan. Líquido vermelho espalhava-se na calçada abundantemente. Nas mãos tinha uma espécie de terço tibetano e os lábios mexiam-se como se estivesse a rezar. O meu filho exprimiu vontade de ter um colar de bolas assim. O homem parecia hipnotizado, talvez com o filme, talvez com as preces. Quando o pequeno-almoço finalmente acabou, a nora sentou-se num tear, a mulher sorriu-nos, o homem continuou a rezar interessado no filme de acção e nós fomos dar uma volta de reconhecimento. Havia uma daquelas casas enormes em construção, grandes troncos polidos abandonados na obra, uma parede de madeira já esculpida pronta a ser colocada. Não estivessemos nós intalados numa assim e ciclopes viriam à conversa. Os caminhos são de terra batida e todos se vestem com fatos tradicionais, para construir casas, pastar porcos, andar de um lado para o outro na vida do dia-a-dia.

Saímos a pé da aldeia e fomos para um imenso prado, ver de perto os Yaks a pastar. Andámos e aproximamo-nos tanto quanto a nossa coragem nos permitiu, não nos atrevemos a tocar em algum. Um homem numa mota passou. O caminho era incerto e os meus filhos jogavam à cabra cega, tropeçando inevitavelmente a cada 5 minutos. Zero instinto de sobrevivência. Corriam à nossa frente e vimo-los sentaram-se ao pé de um bebé que acompanhava duas mulheres pastoras. Convidaram-nos a sentar também, é muito estranha a comunicação quando não passa pelas palavras. As mãos a baterem no chão, um sorriso. O Stéphane tem alguma noções de mandarim, mas aqui, tão perto do Tibete não lhe servem de nada. As crianças conseguem trocar emoções e intenções muito mais facilmente que nós. Já se sabia.
Despedimo-nos e continuamos até não se ver a aldeia. Encontrámos uma vara de porcos pretos a pastar, lembei-me do metro em hora de ponta. As pastoras atiravam-lhes com pedras e paus para que não se afastassem. Para que nenhum porco se magoasse, os meus filhos decidiram "ajudá -las". Corriam como se fossem cães pastores, para manter os porcos unidos. Pediram os paus às pastoras e assumiram o trabalho, elas riram-se e sentaram-se. Os meus filhos corriam com os porcos e eu pensava no que estariam a fazer os seus colegas de escola em França, sentados numa sala de aula. Há duas semanas que não tínhamos tocado num livro.
Este tipo de reflexão assombra-me uma vez por mês. Estamos a estudar muito menos horas do que tinhamos previsto. Ou porque há tanta coisa maravilhosa e nova a ver, ou porque estamos em trânsito e cansados, porque não apetece ou porque não sou a pessoa mais disciplinada do mundo. A verdade é que se fizesse as contas entre as horas que passariam a estudar na escola e as que estudam neste ano, a conclusão seria desastrosa. Estão a aprender outras coisas. Mas para o ano, terão que entrar numa turma que não tinha no programa pastar porcos, nem subir ao Machu Picchu.
Para o ano terão que se adaptar a um ritmo fechado, rigoroso próprio das escolas primárias. Estarei a fazer tudo errado ? Será cedo demais para eles viverem nesta liberdade toda ? Será tarde demais para mim ?

Mais tarde, fomos convidados para beber uma bebida que alguém tinha deitado dentro de uma garrafa de refrigerante, talvez um chá morno. Dois homens começam a fazer uma corda, com fios encontrados no chão, trocámos sorrisos. Entre nós comentavamos o que faziam e o que viamos. Entre eles falavam de nós e riam-se. Tenho quase a certeza que fizemos amigos.Os miúdos fartaram-se e retomaram aos porcos, têm um sentido de missão muito aguçado. Estávamos com fome, mas com medo do que seria a próxima refeição. Não havia nenhuma loja, nem restaurante, nem roulotte de cachorros quente, ía ser qualquer coisa com leite de Yak, ou nada.
E nada parecia-nos tão prometedor.

Ficámos uns dias nesta quinta a dormir num quarto no segundo andar. Partilhávamos a casa com vacas e Yaks que entravam à noite no andar térreo. A casa de banho era um buraco no chão que tinha livre acesso ao apartamento dos animais. De madrugada, os nossos amáveis anfitriões, entravam-nos no quarto, para passarem para a divisão contíngua, vazia de coisas, cheia de mistérios, toda ela em madeira, apenas com um altar com a figura de Dalai Lama e outros monges. Quando saiam, entrava o meu filho às escondidas e colocava-se na mesma posição que os tinha visto, foi assim que soube que se ajoelhavam e postravam todas as manhãs.
Fomos embora com um misto de saudades e alivio. Nunca mais leite de Yak, por amor de Buda ou das minhas papilas gustativas.

Continuámos a rondar o Shangri La, parecia-me tarefa inacabada partir assim. Queria ver se percebia algo para além do truque de marketing do turismo chinês. Do que é que Hilton poderia estar a falar. Destemidos,  porque as estratégias dos lugares turísticos chineses são muitas vezes de se temer, apanhámos o autocarro 3 e fomos ao mosteiro de Songzalin.

Fomos lentos e meticulosos, cada um procurava secretamente algo. Mais de 600 monges vivem nesta vila-mosteiro para estudar a filosofia e os textos budistas. Estranhamente não vimos turistas, algumas casas estavam em construção. Tinhamos uma bizarra sensação que tinhamos entrado sem autorização. As casas tibetanas eram lindissimas, com grandes panos pretos no lugar das portas, nas escadas viamos apenas monges de cabeça rapada vestidos de laranja ou bordeaux. Fomos entrando onde achávamos que podiamos. Numa das residências ouvia-se o mantra que conhecemos em Goa, num restaurante gerido por nepaleses, onde íamos comer quase todas as refeições. Om namah shivaya. Goa entrou novamente em nós. E o mantra seguiu-nos todo o dia.

Os templos budistas tibetanos são muito diferentes dos templos budistas que tinhamos visto até aqui. Nas paredes grandes frescos coloridos falam-nos de buda e de alguns personagens hindus, é interessante e fascinante, mesmo para leigos como nós. Falamos baixo de tudo o que vimos na India, no Vietname, no Cambodja, na Tailândia e no Laos. Comparamos. Falamos de cor e prometemos tornar-nos peritos quando chegassemos a casa. Tantas promessas vãs que fizémos neste ano.
Nos altares alguém tinha colocado estatuetas feitas em manteiga de Yak. O cheiro. A ideia.

O meu filho escondeu-se de nós para imitar um monge frente a uma enorme divindade. Tinhamos falado divertidos dessa sua mania e ele não tinha gostado do tom e agora via-se forçado a esconder-se para viver a sua espiritualidade. Tivémos vergonha como pais.Sem nos termos apercebido tinham exercido repressão religiosa sobre um ente querido.  Tivémos vergonha com seres-humanos. Mas um bocadinho apenas. Sem dramas, nem demoras. O amor compensará adiante.

Gostava de ter ficado mais dias neste mosteiro, até podia ter rapado o cabelo, mas não vi nenhuma monja e algumas atitudes de alguns monges evitaram a razia. Alguns pareciam-me mais materialistas que eu, saindo do complexo em carros enormes ou a olhar para o smartphone. Uns não contam por todos, bem sei. Mantive a minha farta cabeleira ao pensar em todas as conversas que não poderia ter. E parei de julgar este meu filho tão parecido comigo.

Ao pôr do sol, do outro lado do lago, pareceu-me ver um ajuntamento de fotógrafos cheios de material pesado, eles deviam saber o que estavam a fazer e corri com a minha modesta máquina para o melhor ângulo do dia. Para não os atrapalhar passei por trás deles para me posicionar. Tinha que ser rápida, o sol não ía esperar muito mais por mim, já tinha esperado o que podia. Ao verem-me passar, vários fotógrafos viraram-se para tirar fotos de mim, em vez de aproveitarem os últimos minutos de luz dourada. Nunca irei perceber o fascínio que a minha diferença pode exercer sobre os habitantes do outro lado do mundo. Esta foi a foto que tirei. A deles garanto-vos, foi muito menos interessante, estava completamente descabelada. Que usem os filtros que quiserem.

Viémos embora tarde, tivémos que andar kilometros a pé, porque os autocarros já tinham acabado.
Tudo valeu a pena, pelos musculos, pela não-descoberta do que Hilton nos prometera, pela sensação de estarmos largados, pela comunicação sem palavras, pelo inesperado e por tudo o que vivemos, que seria tão facilmente não vivido. Valeu a pena pela vida feita com uma gritante falta de planos. Também pode ser esta a nossa utopia para os dias mais rotineiros de quando voltarmos a casa.
O nosso horizonte perdido.


20.9.16

Nunca em Valdés



Como não nos conhecemos nunca, por mais que vivamos nesta pele, escolhemos os nossos caminhos e os dias a seguir com base em estimativas. Trabalhamos com o que temos.
Não é preciso ser-se muito lúcido, para se suspeitar que andamos a vida inteira aos apalpanços. Não sabemos de nada e quanto a isso pouco nos resta a fazer. Avançamos.
Existem, é certo, alguns eleitos que nem disto têm noção. Paz a eles, apesar de não a merecerem mais que os outros.

Dirigi-me à península Valdés com aquele misto de orgulho, devoção e sacrifício que utilizava de cada vez que levava os meus filhos ao parque, a um concerto para crianças ou outro local para eles e não para mim. Numa viagem a quatro, o compromisso é o conceito central, se não se quer arranjar problemas, e se pretende passar os dias em harmonia.
A península Valdés foi uma escolha deles, desta próxima geração que basicamente tinha partido para o mundo para ver animais. E jogar à bola. Objectivos tão dignos como os meus, que implicavam cansar-me a Viver ou os do pai, fazer o que lhe apetece, com quem lhe apetece, todos os dias, todas as horas, todos os minutos.

Mas vindos de Buenos Aires, até se chegar a Valdés, a Argentina não acaba nunca. Até podemos escolher um daqueles autocarros, com todas as comodidades, para se ir de um ponto ao outro em quase linha recta - as estradas, simplesmente, não acabam nunca.
A mim, então, o infinito.
Alguém tinha-me passado o novo disco dos Alt J clandestinamente, porque existem limites para o Carlos Gardel, e eu ía sentada sozinha no segundo andar no banco da frente. Uma linha de alcatrão em forma de caminho, o eterno risco intermitente hipnotico no meio. Os miúdos liam a Mafalda do Quino, que tinhamos comprado no bairro de San Telmo em Buenos Aires. O Stéphane olhava de lado pela janela com a banda sonora original da vida, porque é um purista. E apenas por isso.
Preciso quase sempre de música nas minhas movimentações, como se todo o barulho do mundo não me bastasse. Quando corro, quando conduzo, quando atravesso países de Norte a Sul. A Argentina, por exemplo, passou de selva às pampas desérticas entre Iguaçu, Buenos Aires e Puerto Madrín ao som sussurrado do This is all yours em modo repetitivo. De novo, de novo, de novo. Como fazia com as cassetes dos Depeche Mode nos anos 80.
Quando cheguei a casa, em Paris, e ouvi o Every other Frekle na Rádio Nova não foi evidente perceber o que me tinha acontecido. Afinal, tudo tinha acabado sem o meu consentimento.

Chegámos a Puerto Madrín de manhã. Os corpos torcidos, a cabeça à roda, numa pequena gare com estatuetas de pinguins e baleias e ninguém no posto do turismo. Segundo o mapa e as indicações do senhor das limpezas, o centro era a dois passos, pelo que nos fizémos à estrada com a brisa da manhã. Não necessariamente pelo caminho mais curto - os tais ossos do ofício.
E sempre esta sensação de caminhar ao lado dos meus filhos e do meu namorado por lugares que não conhecemos, sem saber o que esperar. Sempre esta palavra, aventura, que trazemos nas mochilas e que as torna mais leves.
Sempre esta impressão enorme que somos capazes de tudo. Juntos. No mundo inteiro.

Tomámos quase um bom pequeno-almoço e encontrámos rapidamente onde dormir.
No dia a seguir, alugámos o carro e eu finalmente conduzi. O Stéphane, que pensa sempre em tudo, tinha-se esquecido da carta de condução em casa, num espaço meticulosamente bem organizado. E eu que não preparo nada, não tinha mexido na minha, pelo que a encontrei na carteira, como nos dias em que vou ao Leclercq comprar leite para a semana.
A vida é muito injusta, pelo que me tenho safado.

Depois de controlados pelos agentes da reserva saímos da civilização urbana e entrámos na verdadeira civilização, onde nos devemos tornar invisíveis. Não tocar, não gritar, não estragar.
Guanacos atravessam a estrada, sem pressa e Nandus competem em velocidade connosco. Ando devagar, porque a estrada é em gravilho e porque não quero que acabe nunca. Nunca.
Seguimos em direcção ao Norte, a uma praia onde leões e elefantes marinhos vão acasalar. Queriamos mostrá-los aos nossos filhos. Esses eram os planos. Mas naquela praia entendi que existem outras maneiras de se viver na Terra e estar em contacto com o essencial. Outros prazeres, outros espantos. E o espectáculo que tinha reservado para os meus filhos, tomei-o inteiro para mim. Olhos abertos, coração escancarado.

Vimos muito e vimos pouco. Não veremos nunca o suficiente. Falhámos as orcas.
Tivémos sorte com as baleias. Estávamos a uns meses do nascimento das novas baleias e vimos de muito perto várias mães com os filhos. Fomos molhados por baleias. Num espelho distorcido, de um lado nós, microscópicos num barco minúsculo, do outro aquele enorme animal naquele imenso mar. Eu, como uma baleia-franca-austral-mãe. O meu filho a olhar a cria e as mães atrás, a vigiar.

Em jantares mundanos perguntam-me do que mais gostei nesta viagem. Num ano inteiro tão intenso, não há espaço para classificações, respondo ao calhas. Mas perto da verdade deve andar este inesperado, este prazer encontrado em lugares que não escolhi e a prespectiva de ter vivido em mundos com pouca presença do homem.
Nunca teria ído à península Valdés ou a Punta Tombo se não fosse pelos meus filhos. Estes seres fantasticos que começam por nos parasitar o corpo, que por ele são rejeitados e sem os quais não imaginamos a vida.
Nunca teria sabido o que tinha perdido. Aparentemente, ainda existem vantagens nesta estranha maneira de se viver, procriando.


**


No meio do sublime, falhamos a compustura, com a palavra ballena dita pelos argentinos. O trocado pelo V. Os LL trocados pelo G. Caramba.
Nunca estaremos à altura. Mas nunca nos privaremos de nada.

19.9.16

Presos pela lua em Atacama




A dada altura da nossa viagem pelo mundo, e por nós mesmos, ficámos presos. O lugar de onde não conseguíamos sair foi o deserto de Atacama, numa semana de lua cheia que nunca mais acabava - ali para Outubro ou Novembro de 2014. O tempo passa e nunca fui boa a contá-lo. As aproximações sempre fizeram parte de mim. Temos que aceitar isto.
Tínhamos chegado ao deserto depois de uma ida e volta ao inferno e ao paraíso. Palavras aparentemente exageradas. Tentaria evitá-las se não fossem tão necessárias para explicar o que vivi. Uma ateia que se refere ao mundo com palavras bíblicas. Que me sugerem outras para o inferno que vivi na semana da morte da minha avó, comigo longe. Em Sucre. A branca e fúnebre Sucre. Ou outra para descrever melhor a paz a imensidão, a beleza e a todas as lágrímas que deixei entre o salar de Uyuni e a fronteira com o Chile. Se calhar, um dia falarei deste estranho período da nossa viagem e da minha vida. Um dia em que esteja cheia de coragem.
Tão longe que me parece hoje, esse dia.

Ficámos, assim, presos no meio de tanta liberdade.
Tínhamos chegado cheio de pó, com os olhos vermelhos do sol e de tudo o que vimos, movidos por promessas do melhor céu do mundo para se ver estrelas. Uma vontade bonita e aparentemente fácil.
Mas tudo o víamos era uma imensa lua cheia, quando nos passeávamos na vila de San Pedro nesses longos dias de espera. 
As estradas de terra batida, casas brancas ou ocres, cães errantes, areia levantada pelo vento, nós e a promessa. Como num cenário de um western, não fossem os turistas à procura de gorros de alpaca e uma manifestação de professores "trabajar... ¿sin opinar ?" para nos fazer sentir em casa.

Estávamos a 3 ou 4 meses do início do nosso périplo. Não tinhamos parado muito até então, não sou de parar. Faz-me um mal terrível às costas e o Stéphane, o homem mais calmo e sensato que já conheci, estava a desenvolver uma estranha e forte urgência em viver. As crianças, essas, íam andando atrás de nós, ao lado e muitas vezes à frente. Tão maravilhadas como com um jogo de vídeo novo, mas sem comandos. As crianças são fantásticas em movimento. Autênticos bichos de adaptação e resiliência. Maldigo as regras, paredes, salas de aula e outras prisões. Não posso fazer de outra maneira. Aprendi demasiado nesta viagem para ser compreensiva. Vivo desta estranha forma.

Mas a prisão que encontrámos em Atacama era diferente. Queixávamo-nos da má sorte que se tinha abatido sobre nós : a lua cheia mais cheia e mais longa das nossas curtas e medianas existências. Todos os dias, no pico do calor quando estávamos a cozinhar o almoço, discutíamos se devíamos esperar ou abandonar o céu estrelado que teima em esconder-se. Iamos ficando, estava calor lá fora. Amanhã logo se via. Hoje comemos ovos mexidos com tomate.

Estávamos numa espécie de villa de uma senhora, que aceitava roupa para lavar, dos turistas e passantes empoeirados, em troca de pesos chilenos. No deserto, apenas a água para beber é gratuita. Quando temos sorte. Os quartos ocres estavam distribuídos à volta de um pátio. E na sombra desse pátio passávamos os dias à espera da frescura suficiente para sair.

Uma grande parte das perguntas que me fazem é acerca da escolaridade dos miúdos. Não estamos habituados a ensinar aos nossos filhos. Parece-nos estranho. Temos receios. Delegamos, delegamos, delegamos. Tínhamos que dar a primeira classe ao nosso filho e a terceira à nossa filha. Queriamos tanto fazer esta viagem que demos ouvidos apenas às facilidades.
Eles têm personalidades opostas, o nosso filho quer ser o melhor a tudo e a minha filha quer viver melhor, um dia de cada vez, todos os dias. Nada pode ser mais antagónico.
Ainda a viagem não tinha começado e o nosso filho já sabia ler e escrever. A nossa filha, essa, já a viagem tinha acabado e ela ainda não estava convencida que era pela escola que tinha que ir.
Um dia contou-me que nunca mais queria acabar de viajar, que queria andar por ali, a conhecer pessoas e mundos, que ninguém lhe dissesse o que era importante aprender, que fosse ela a decidir e a ir indo. Eu estava com o período nesse dia e chorei. Entrou-me um cisco no olho. No dia a seguir, não me apanhou desprevenida e forcei-a a fazer uma ficha inteira sobre o Passé Composé. Não tenho a certeza de nada, mas acho que ensinei o programa da terceira classe à minha filha por medo e não por convicção. Quero muito ser uma boa mãe. Não faço ideia como é que isso se faz, apenas sei que não vem nos livros.

O melhor amigo do meu filho nessa semana foi um japonês de 50 anos. O meu filho foi obcecado pelo Japão quando estávamos no norte do Chile. Queria ver documentários sobre Kyoto e a fauna japonesa das montanhas, desenhar grous e gruas e aprender a falar japonês. Todos os dias aprendia palavras com esse companheiro inesperado de infortúnio e sonhava poder voltar a casa, para trazer o seu kimono branco do judo, num instante. No fundo, no fundo sempre foi japonês na alma, estava convencido disso. Durante toda a semana.

Por volta das 4 ou 5 da tarde entrávamos no deserto em jipes ou carrinhas com ar condicionado. Percorríamos paisagens lunares. Nadávamos nos grandes e inesperados buracos com água no meio daquela areia toda, flutuávamos nas lagoas salgadas que nunca nos deixariam morrer afogados. E olhávamos a lua a subir, a grande e cheia lua do outro lado das lagoas.

Quando estava no vale de Marte, ou da Morte, segundo os guias mais sensacionalistas, não pude deixar de pensar em como nada daquela paisagem extraterreste me remetia à ideia que faço da morte. Tudo à minha volta me parecia belo e imenso e vivo, as cores da terra e da areia, as formas das dunas que pareciam mudar de feitio todos os dias, as sombras tão diferentes a cada hora do dia, as temperaturas extremas do meio-dia e da meia-noite, as cores do nascer e do pôr do sol. A vida. E divaguei nas paisagens que associo à morte. Os centros comerciais dos anos 90, agora abandonados, os prédios enormes sem varandas com cores deslavadas, as marquises, os estores em PVC branco fechados, os parques de estacionamento, os parques infantis enferrujados,muitas vezes partidos, as garrafas de cerveja estilhaçadas, os bancos partidos, os passeios desnivelados, os tags sem sentido nem talento, as passagens com cheiro a urina. A minha ideia de morte é o mau urbanismo dos subúrbios de Lisboa. Do declínio que respiro nas paisagens dos meus mais belos anos. Regresso a elas quase todos os anos e finjo não sentir um peso maior do que a saciedade da saudade.
Queria ver vida nos lugares onde eu já vivi tanto.

Tinha lido Luis Sepúlveda, em tempos de amor literário adolescente, daqueles amor obsessivos que nos levam a querer ler tudo de um autor, Lembrava-me da capa do livro "Rosas de Atacama", mas aos 39 anos não me lembrava de uma única linha. Pensei nisso enquanto olhava para o dramático Licancabour ao pôr do sol. Perguntei-me sobre se algo nesse livro poder-me-ia ter preparado para tão extraordinário espectáculo.  
Não tenho ideia de quantos anos vão passar até esquecer por completo estes dias de areia e de espera.
Licancabur. Que palavra tão fenomenal e apropriada.

No dia em que a lua cheia desapareceu corremos para um astrónomo francês, que todos diziam ser o melhor da terra, para percebermos o que íamos ver. Todas as estrelas do mundo. Toda a nossa ignorância.
Mas apenas um inexperiente, nesta coisa de se depender da natureza, espera exactidão e agendas. O céu estava coberto de nuvens. Evidentemente. Quando se sai do outlook, das reuniões, dos relógios, das rotinas e dos horários, tudo pode corre mal. Ou diferente. Na verdade, é assim a vida. Mas não podemos saber quando estamos ocupados no dia-a-dia. A vida real nunca acontece como esperado.
E ainda bem.
Ninguém estudou nesse dia de frustação. Um dente de leite caíu. E as nossas certezas e preocupações pareceram-nos ridículas. As nossas expectativas, infantis. As nossas certezas, vergonhosas. Pensávamos que estavamos a viver um sonho, que românticos e inadaptados podemos às vezes ser. A realidade, essa, mesmo quando todos os projectos mais loucos, tem sempre a última palavra.
Na noite a seguir, fomos ver estrelas com um enorme telescópio e um raio laser.
Nada foi tão bom como a espera.
Só alguém que se esqueceu do que leu podia não saber disto.

18.9.15

Um mês chinês sem facebook II



Xizhou, o mesmo mês de Maio de 2015 



Acordámos tarde e com nuvens. Dissemos, a todos os que nos perguntaram, que não queríamos apanhar um táxi para uma aldeia que fica mesmo já ali. O preço parecia-nos exorbitante, visto da China que trabalha.
Ninguém sabia falar inglês, mas também ninguém o esperava. Passamos uns quinze minutos a andar de um lado para o outro a dizer Xizhou como podíamos. Não há autocarros, mentiam os taxistas sem bigode. Hoje não é possível, mentiam os condutores clandestinos, têm que vir comigo. Um policia indicou-nos uma rua que subia, e em cima, apanhamos um autocarro que nos deixou ainda mais em cima. Tínhamos que sair e trocar de autocarro, tentando novamente a nossa sorte com a palavra Xizhou. Quando foi o meu filho a dizer, perceberam à primeira. Ha-de haverum nome para este tipo de preferência descriminatoria. Novo autocarro e seguimos em direcção ao que os nossos amigos de ocasião tinham chamado de uma aldeia "interessante" chinesa. 
Chegamos e andamos. Garagens, lojas de ferramentas, drogarias, mercearias. Perguntamos onde era o centro e andamos e perguntamos e andamos. Demos a volta inteira à aldeia e não demos com ele. Uma aldeia chinesa tem forçosamente aspas para um ocidental. Uma aldeia chinesa tem, por exemplo, 40 000 habitantes. Mas mesmo que a nossa ideia de aldeia não seja a realidade que encontramos, vamos encontrar, ao menos, ruas calmas e desertas à hora do cultivo do arroz. E vejam como ficamos reconfortado ao encontrar algo que conhecemos. Sim, estamos numa aldeia, pensamos, satisfeitos.
Sentimo-nos perdidos a cada esquina, mas apetece-nos tanto entrar nas porta entreabertas, que continuamos a avançar no labirinto. Numa das portas de madeira alguém escreveu em inglês, com tinta branca improvisada, que se pode entrar nesta casa bai, por 3 yunnans. Vê-se bem que a industria do turismo chinês ainda não passou por aqui. Suspiramos de alivio. O efeito surpresa das belas casas perfeitamente remodeladas de Dali, está a desaparecer, não queremos ver mais pessoas a comer cupcakes ao pé de uma porta da dinastia Duan, com aspecto novinho em  folha. O passado deve parecer passado. Aqui também temos as nossas certezas e ficamos confusos quando não é assim.
Uma senhora vem espreitar, de vez em quando, à porta para ver se algum visitante perdido, como nos, poderá estar interessado em ver a sua roupa a secar ao vento, ou o seu pai sentado numa cadeia de verga. Os visitantes são pessoas estranhas, já se sabe.
Entramos, um patio Bai, um corredor, um outro pátio Bai. Entramos numa casa e perdemo-nos novamente, como se estivéssemos agora numa outra aldeia, dentro de uma aldeia. A desarrumação é omnipresente. Ninguém se ocupa de nos. Ninguém fala inglês. Ninguém se esforça. Podemos andar por ali, como queremos. Não deixo os meus filhos entrar num quarto de criança. A criança não está lá, largou os brinquedos no chão antes de sair para a escola. Valores de propriedade privada devem estar mais presentes em mim do que julgava. Continuamos a deambular nas partes que consideramos publicas, mas não temos a certeza do que estamos a fazer. Avançamos, ninguém nos diz o que podemos fazer, nenhuma corda como nos museus. Sentimo-nos à vontade. Sinto-me sempre em casa, quando estou numa casa desarrumada. Aqui vive-se é já é muito. Já é tudo.
Vimos a roupa estendida, as colchas, as cuecas. As galinhas à solta, os coelhos nas gaiolas. A cozinha com tachos a aquecer. As camas por fazer. Fomos abandonados e abandonamo-nos.
Como uma mosca com permissão.

Lembro-me da minha vida normal. Nem sempre é preciso colocar as aspas na palavra normal. Lembro-me de como vivia, de como sou, na pessoa estranha em que me tornei. De andar sem me aperceber que estava a andar. A cabeça noutro lugar. A curiosidade à frente do écran. A andar de um lado para o outro, sem ter consciência disso. Sem procurar saber mais sobre a pessoa que se senta ao meu lado ou a quem abro a porta. Com receio que a vizinha do segundo andar queira falar comigo de alguma coisa, de ter que fingir pressa, de ter que esconder um tédio dominante. Omnipresente. Não faço ideia de porque é que a China parece-me agora muito mais interessante do que a minha rua, ou o bairro ao lado do meu. Vejo às vezes blogues com fotos de portas comuns, de ruas por onde passamos todos os dias. Não sei o que acorda as pessoas da sua rotina, para conseguirem interessar-se pelo que sempre esta ali ao lado. Eu tive que vir para o outro lado do mundo, uma aldeia onde tudo me é estranho, onde a língua é um mistério, para acordar. Sinto uma súbita pena os viajantes, dos que têm que ir para longe para se admirarem, para abrir os olhos. Quando é que fechei os meus ?

...

Ouve-se uma explosão perto de nos. Uma estudante de belas artes, e os imitadores dos meus filhos, estavam a desenhar uma porta de um templo e deixam cair os cadernos. Não é uma improvável manifestação contra algo, nem uma eminente explosão de produtos altamente explosivos que se armazena aqui como se de arroz se tratasse. A explosão é divina, duas senhoras saíram do templo e colocaram bombinhas num forno para comunicar com os deuses. A comunicação é unilateral, mas bastante ruidosa. A rapariga revira os olhos e quando os tem novamente no lugar, quer ver os desenhos que os meus filhos fizeram, comparam resultados. Apesar da imparcialidade que devemos ter enquanto progenitores, devo aqui admitir que o dela está ligeiramente mais bem conseguido que os dos meus filhos.
Começamos a falar. Não me lembro da ultima vez que tive uma conversa com alguém que não conhecia, quando estava em casa. Muito menos de acabarmos por almoçar juntos. Aos meus filhos costumo sempre dizer que não se deve falar com estranhos. Estou a educa-los como me educaram a mim, vão tornar-se seres perfeitamente integrados na sociedade europeia. E estranhos.
A rapariga leva-nos para um restaurante com ar bastante basico, é estudante em Chengdu e esta chocada com os preços que se praticam nos lugares turisticos. Tem comido sopas de massas instantaneas com as amigas, desde que chegou à provincia de Yunnan. Sentamo-nos e ela vai discutir com a cozinheira o que vai ser o nosso almoço. A conversa dura 5 minutos, ha bastante negociação. Enquanto esperamos, falamos de Paris, a cidade que sempre quis visitar e temos uma lição gratuita de chinês. Ri-se muito quando tento falar, como se dissesse porta de aluminio, quando o que devia dizer era cadeira de madeira exotica. Pensa que faço de proposito. Mergulho no meu cha verde, não entendo o que faço de tão errado assim. Os meus filhos recebem aplausos, um senhor que esta sentado na mesa ao lado, levanta-se e faz parte da lição, pergunta se têm aulas de mandarim em casa. Nado no meu cha entre orgulho de mãe e vergonha de aluna. O Francês safa-se porque é discreto, mas esta convencido que o seu sotaque é melhor que o meu. Francamente não faço ideia.
Nesta altura acredito piamente que quando chegarmos a casa vamos ter aulas de mandarim no XIII arrondissement, o Francês mais pessimista sabe que vamos ser engolidos pela rotina. O momento é agora, consegue dizer apesar da enorme dose de picante que acaba de comer por engano.
Despedimo-nos com grandes abraços, os miudos estão particularmente emocionados com este encontro e falam com grandes exageros sobre a gentileza dos chineses em geral e desta estudante em particular. Dizem-me que deviamos convida-la para vir para nossa casa, para que ela possa visitar Paris.
Não faço ideia de como vai ser a minha vida, quando voltar. Se vou procurar toda a informação queme tem faltado e que me tenho prometido. Se vou continuar a falar com as pessoas desconhecidas que encontro na rua. Se as vou convidar para almoçar, para virem para nossa casa. Ou se vou ficar cinzenta e deixar-me levar pela maré das conversas ocasionais com vizinhos que conheço ha dez anos. Tenho muita curiosidade em saber como me vai mudar este viagem.
Serei suficientemente inteligente para continuar a viagem, depois que esta acabe ?

10.9.15

Um mês chinês sem facebook I




Dali, Maio 2015


Somos novamente raros.
Vive-se contrariado o regresso da fama dos brancos,  quando tudo o que se quer, é o proveito. Os meus filhos reviram os olhos. Parece que estamos na Índia outra vez, pensam alto e suspiram. Estranhamos esta atenção e curiosidade que despertamos nos outros. Esperávamos uma relação unilateral, os curiosos devíamos ser nós.
Parece que ainda existem lugares, onde quem vive o dia-a-dia rotineiro, ainda se consegue fascinar pelo que o rodeia. Nem todos estão mortos dentro dos horários das 9 às 18h. Ainda há lugar para a esperança, afinal. Hoje, aqui, ponham os olhos em nós.

Perguntamos o que fazem as pessoas com todas estas fotografias, que tiram de nós. Dizemos a brincar que, se calhar, vamos parar num fundo de um écran qualquer, ou num grande poster em cima de uma cama de casal. Um dos turistas chineses que nos rodeia, reflex na mão, acha a ideia boa. E tira mais uma foto, sem avisar. Devo ter ficado com a boca aberta e um olho fechado. Devia tirar mais uma, eu mereço uma nova chance. Caramba.
Seguem uma guia vestida a rigor, nas ruas de Dali, mas param para nos observar. Querem viver esta experiência. Interessam-se de perto por nós. De muito, muito perto. Acentuam as mínimas diferenças físicas que existem entre uns e outros. Penso em Marco Polo e em tudo o que não mudou. Começo a ver e a viver com olhos e vontade de privilegiada. Tudo vai mudar. Isto ainda não. E aqui estou eu. Agora.
E os olhos azuis da minha filha, que são iguais aos da mãe. E as pestanas do meu filho, e a barba do francês. Não sou fisionomista, não vejo parecenças, nem diferenças. Entre a senhora chinesa que me quer tirar uma fotografia e eu, não há maior diferença física do que entre eu e a minha melhor amiga portuguesa. Quem vê a humanidade pelo prisma da raça diz que sim. Fazer o quê ? Sorrir.
Say soy cheese.
Os meus filhos fogem a correr. Estão fartos. Os turistas riem e tentam tirar uma ultima fotografia. Coitados dos Beatles.

A velha cidade parece saída directamente dos álbuns do Tintin ou dos filmes de Ang Lee. Está tudo tão restaurado, que me tenho que lembrar constantemente que isto não é a Disneylândia. Estamos à procura de algo, de outra sensação. Fugimos das ruas principais com os bares de cerveja americana e snooker, dos cafés com cupcakes e dos MacDonalds, vamos ficar alérgicos à cultura ocidental no final desta viagem. Vai ser bonito.
Tinha lido na net, um debate completamente sem interesse sobre qual seria a mais bela, se Dali ou Linjiang. Ocorre-me, ocasionalmente, perguntar-me porque passo tanto tempo à frente do computador.

Começamos o dia a aprender como se escreve hotel em chinês, mas rapidamente percebemos que não vai ser assim tão fácil, existem caractéres enigmáticos para hotel, albergaria, hostel, para hospedagem. Para não falar das casas que suspeitamos serem hotéis, mas que não afixam nada à porta. Como não queremos seguir o Lonely Planet, nem conselhos de ninguém em geral, para não arriscarmos acabar num retiro de turistas ocidentais, damos por nós a entrar em restaurantes, casas particulares, casas de massagens e a perguntar se têm quartos familiares, num mandarim que vos poupo. Parece ser este o preço a pagar por se querer fazer as coisas à nossa maneira. Os miúdos preferem não entrar, fazem apostas e riem-se muito com os resultados.
Sinceramente, nem sempre tenho a certeza da utilidade das viagens intergeracionais.

Longe de Huguo road, a rua dos estrangeiros, encontramos uma casa antiga, e não tão bem preservada assim, com uma grande porta aberta. O jardim cresce, mas apenas porque tem boa vontade, as cadeiras estão desarrumadas e há ferramentas de jardim e bricolagem a enferrujar. Mas há também um simpático ser humano, nascido em Chengdu, que sabe falar inglês, nos convida a beber chá verde, promete um nome chinês aos meus filhos e insiste que não podemos recusar o seu convite para o jantar familiar. Presumimos que estamos num hotel e chamamos os miúdos, essa geração vindoura, que entretanto ficou, de fora sob pretexto de guardar as bagagens. E verificar o resultado das apostas.
Não vou estar com meias palavras, porque adoptei uma postura de deslumbrada e tento não ter vergonha de tanta facilidade das emoções e satisfações. Sou uma pessoa cheia de pontos de exclamação nos finais das frases. Apaixonamo-nos pelos telhados, pela desordem e pelo inglês deste chinês. Tão precioso o inglês, depois de um dia inteiro sem perceber nada o que se passa à nossa volta.
Os meus filhos afirmam imediatamente nunca mais querer sair do pé do grande cão Xiong Xiong, que quer dizer urso. E o francês lembra-nos que os bisavós da Bretanha tinham um cavalo a que chamavam coelho e uma vaca a que chamavam cão. Se isto não são razões para se apaixonar por pessoas, por gerações e por povos...

Sentimo-nos bem-vindos, sentimo-nos em casa. Estamos mesmo à vontade, passados apenas cinco minutos. Apetece-me descalçar-me. A hospitalidade chinesa resulta.
A China vai esquartejar, a sabre frio, um a um, os preconceitos que me foram entregues quando anunciei, entre amigos e outros viajantes, que vínhamos para aqui. Vai ser um massacre. Todas as ideias feitas caíram no primeiro dia.
Algumas levantaram-se no dia a seguir.

Sunny, o chinês simpático de Chengdu que fala inglês, cumpre as promessas que faz. Sentado na mesa do pátio da casa, reune-se com um casal que não sei o que está ali a fazer, mas o que é facto é que está sempre ali, de bem com a vida, e discutem seriamente acerca do futuro dos nomes dos meus filhos. Numa folha escrevem, apagam, voltam a escrever, discutem. Quase que parece que é algo sério. Provavelmente é. Os meus filhos estão ao lado, com um ar muito comprometido, como se fossem entrar numa seita ou numa juventude partidária. Noto agora que sou dada a pleonasmos. 
No final, todos parecem satifeitos: tenho um filho que agora se chama Long Fei Qiong e uma filha Long Wu Meng. Sunny, que na realidade se chama Wang Hui - deixemo-nos de facilidades - explica-nos tudo, não há que ficar preocupado. Long quer dizer dragão, que por motivos evidentes, que me escaparam, parece ser apropriado aos dois e depois Fei Qiong quer dizer voar e forte, que é o que um homem deve ser, deve acreditar que pode voar e deve ter força. Mas já a mulher não precisa de nada disto - aqui começo a olhar para o céu - porque o homem já está lá - aqui começo a agarrar numa pedra metafórica e estou pronta a lançar. Wu Mei, significa dançar e sonhar, o que é até bastante salutar, não fosse o carácter meramente decorativo. A minha filha aceita de bom grado o nome e até diz obrigada, afinal, tem sido bem educada ao som e moral dos filmes e das histórias - que recebe de outras pessoas que não os pais, limpo a minha reputação, que é importante - em que o herói é quase sempre um rapaz. 
Protesto, mas apenas recebo em troca um sorriso, o que está feito, feito está. Os meus filhos nunca mais mudarão de nome e eu bem que posso deitar-me ao chão e esbracejar à vontade. Opto por uma atitude digna.

A dona da casa preparou-nos um jantar copioso, dizem-me que foi ela que preparou tudo sozinha e eu contabilizo as horas na cozinha. Duas clientes chinesas são também convidadas, mas dizem-lhes a brincar que têm que trabalhar. Sempre numa amena brincadeira explicam-lhes que a cozinha fica no andar de cima. A rir elas vão e nós preparamo-nos para ir também. Mas as regras são para cumprir. Uma coisa é ser-se chinesa mulher solteira. Outra coisa é ser-se homem, ponto. Ou mulher estrangeira "casada", ponto e virgula e reticência. Protesto. Respondem-me com um sorriso. Bem posso descabelar-me, partir os pratos todos, que a regra não vai ser quebrada. Opto por não ir a lado nenhum, cruzo as pernas delicadamente. E sorrio. Se o meu eu com vinte anos me visse agora, morreria de vergonha. Aos quarenta anos, sei que com uma cerveja tudo passa. Gritarei mais tarde, numa discussão no facebook, pelos ideais feminisitas.

Bebemos cerveja. Não como se fosse algo natural, agarrar no copo e levá-lo à boca de cada vez que nos apetece. Isto não é uma rebaldaria. Bebemos quando o dono da casa bebe e o nosso copo deve estar sempre mais em baixo do que o dos outros. Chama-se a isto respeito, senhores. Sendo que todos e cada um de nós é o outro de alguém. A dado momento deixamo-nos de tretas e bebemos. Mas à próxima repetimos. A cerveja é fresca e com pouquíssimo álcool, mas todos parecemos querer ficar bêbados, por isso, as latas de cerveja sucedem-se sem fim. Rimo-nos muito, principalmente quem não percebe a língua que na altura se está a falar. Estamos sempre servidos quando estamos bem connosco. Há estrelas no céu. O cão nunca mordeu nos meus filhos e a vida na China parece-me verdadeiramente aquilo com que sempre sonhei. Mas nem à quarta cerveja acreditei realmente no que sentia.

Alguns kempei depois e começa-se a falar de casamento.Wang hui, que em português se diz Rei da Luz - os pais queriam que tivesse um caminho luminoso, enquanto que eu apenas quis que os meus filhos tivessem o som "ia" no seu nome, como pode ser fútil uma mãe ocidental - vai-se casar em Outubro. Uma grande festa de um dia inteiro com muitos pratos de comida, elucida-nos.
Diz-nos que vai ter que trabalhar muito quando acabar as férias em Dali. Tem que juntar dinheiro para comprar uma boa casa, um bom carro, não quer um carro qualquer. Apenas assim merecerá uma mulher bonita. As mulheres bonitas querem vidas caras. Pergunto-lhe se valerá a pena o esforço, se não seria preferível uma mulher feia e uma vida fácil. Sorri. Uma mulher feia está fora de questão. Não quer uma mulher feia. My god ! Diz com um sotaque de Oxford, tenho a impressão que aprendeu isto num filme, e leva as mãos à cabeça. Insisto e tento uma rasteira, e uma mulher inteligente ? Não é preferível uma mulher inteligente ? Mas a resposta não se deixa levar pela cerveja engolida : todas as mulheres chinesas são inteligentes. O dono da casa salva-me e leva o copo à boca. Posso finalmente beber. E bebo muito. 
Wang continua, diz-nos que não gosta de trabalhar, que prefere a vida fácil e lenta de Dali. Concordamos todos e bebemos juntos. Kempei. Gosta de acordar às 10h e sentir-se em família e comer e rir. Kempei a isso, companheiro. Mas a vida fácil vai acabar daqui a 4 dias. Vai trabalhar em Chengdu, já tem 33 anos e quer a vida que sonhou, e para isso, está disposto a abandonar a vida que gosta.
Kempei, se não há outro remédio...

...

No jardim da cidade estudamos a nossa primeira lição em mandarim: contar até 10. Sozinhos tentamos memorizar as palavras, os símbolos e os gestos que os nossos companheiros de sorte e refeições nos tinham ensinado na véspera.
Estamos rodeados de mesas de seniores a jogar ao xadrez chinês. O meu filho, memorizou tudo muito antes do resto da família, afasta-se e aproxima-se do jogo da mesa do canto. Eu digo que também memorizei e antes que alguém queira verificar, vou para o pé de um grupo de reformados sem reforma, que estão com a rádio ligada. Ou são todos surdos ou muito tolerantes. Vinte rádios com volume no máximo, todos sintonizadas em estações diferentes, fazem-me questionar a liberdade de escolha como valor absoluto e universal.
Olham para mim enquanto passam, uns dançam, outros não. Todos me sorriem. Deve ser um bom lugar para passar a terceira idade. Faço contas mentais para calcular quantos anos ainda me faltam. Não tantos assim.

Wang explica-nos mais tarde que quando se casar com o trabalho, com a casa e com a mulher, vai dizer aos pais para irem morar com ele. Ele é o irmão mais velho e é isso que tem que fazer. Os pais trataram bem dele. Agora ele vai tratar bem dos pais. Parece justo. E além disso, não quer ser apontado pelos vizinhos como um mau filho. My god ! repete. Calo frases feitas sobre dar-se demasiada importância ao julgamento dos outros. My god ! repetiria Wang.

Os senhores do jardim parecem ter filhos que foram muito bem tratados quando eram pequenos.

...

A beleza é muito importante para os nossos anfitriões. Os meus filhos são muito elogiados pela sua aparência. Um homem que não fala inglês mostra uma frase no écran do seu smartphone ao Francês a elogiar-lhe a barba. Ninguém diz nada sobre a minha aparência, nem mesmo no dia em que fiz esforços com o meu cabelo. A China é um pais muito duro, os meus amigos tinham razão.

Este texto poderia ser muito mais rico e profundo se eu tivesse percebido mais do que um terço do que me diziam e do que se passava à minha volta. Quanto tempo é preciso para se perceber o mínimo de uma conversa em mandarim ? Sonho com grupos de conversa na Chinatown em Paris e logo percebo como sou alguém de muito razoável. o que me apetecia era viver na China. Largar para sempre o que deixei temporariamente. Ser chinesa em Dali, acordar todos os dias depois das 10h, a seguir a uma longa conversa na noite anterior. Mas penso em compromissos em Paris. Noutras cidades chinesas, contam-me a vida começa muito cedo. Com o sol, as pessoas acordam, começam a correr de um lado para o outro. Oh, my god ! exclama Wang, metendo as mãos à cabeça.
Oh, my god ! diz mesmo a minha boca descrente.

...

Percebemos mais tarde, que passamos as noites com a juventude dourada chinesa. A que estudou, que viajou, a que compra Louis Vuitton nos Champs Elysées, a que fala fluentemente inglês. Daqui a dez anos muitos chineses vão ser ricos, discute-se novamente a beber a cerveja que não embebeda. A China vai mudar. Ainda mais. O mundo vai ser outro.
Joy tem 25 anos e viveu em Beijing durante quatro. Diz que a mudança é demasiado rápida. Quando saiu não reconheceu a cidade em que tinha chegado. Uma outra cidade. A China vai ser como Beijing.
Mas todos estão de acordo com algumas reservas : nem todos vão conhecer esta abundância. Há sempre quem fique de lado. Os agricultores das montanhas ganham o equivalente a 700 euros por ano. Uma mala Louis Vuitton sem as taxas de importação.
Joy confessa à segunda cerveja que nem tudo é alegria, na sua vida de mulher emancipada da nova China. Os pais pressionam-na. Tem que se casar. 25 anos é tarde para uma mulher chinesa. E ela não encontra marido. Nem quer saber. Quer viajar, trabalhar como eu também queria aos 25 anos.
Apesar do peso das tradições e da família, Joy é um nome apropriado, foi ela quem o escolheu quando aprendeu inglês na escola secundaria. Joy podia ser uma de nós, a crescer num mundo diferente. Num mundo que pensa que a vida é demasiado pequena para que caiba tudo. Onde se tem que fazer escolhas, onde não se pode escolher tudo. Obedecer a regras, pagar e gastar-se.
E gastar-se.

Wang Hui comenta mais tarde na noite, quando ficamos sozinhos, que muito provavelmente a Joy nunca ira encontrar um marido chinês. Uma boa mulher não é assim. Wang prefere uma mulher que cuide dele, gentil, que cuide dos seus pais. Sinto uma estranha simpatia por Wang, na verdade, nunca tinha conhecido um misógino tão simpatico. Fico satisfeita por não morar perto dele, de certeza que se continuássemos a falar, o tom iria vertiginosamente azedar. Esta é uma das muitas razões que me levam a gostar de viajar sem cessar. Acumulo amigos, mesmo que uma parte deles sejam potenciais inimigos. O mundo é mais fácil de engolir quando não se fica muito tempo focado em questões essenciais e outros pormenores.

...

Decidimos incluir Chengdu no nosso itinerário, quando sairmos da província de Yunnan. Coincidência ou não todas as pessoas de que gostamos são de Chengdu. Avisam-nos que existe apenas algo a que temos de fazer atenção : a comida é muito picante em Chengdu. Como se a agressividade das especiarias, determinasse a doçura no carácter.
Talvez as educadoras que colocam piri piri na boca dos mal comportados, afinal tenham um fundo de verdade psicológica, mesmo talvez filosófica. Decido mudar o meu modo de vida, vou aderir ao chocolate com pimentos padron assim que chegar a casa. E depois dizer asneiras de propósito.

...

Pode-se, com muita razão, especular a dada altura, sobre quantas mais linhas escritas em Dali, vai ser preciso ler, para se ler algo sobre Dali.
Acontece que nem sempre a viagem, e o que nos fica dela, é o que se espera. Isto todos pensamos que sabemos, mas uma vez vivido parece que é diferente. Como se fosse de admirar a confirmação de uma teoria que apenas tivesse sido escrita no quadro. Einstein deve saber do que estou a falar, Coitado. Coitado dele e dos habitantes de Hiroshima.
Não sei se sei muita coisa sobre Dali, para ser sincera. Pode-se saber muito de um lugar onde se passou. Posso-vos apenas contar-me dos meus dias em Dali. Do que ali ouvi e senti. Da cerveja que bebi.

Posso andar um pouco para trás, se isso ajudar em alguma coisa. Depois de sairmos de Kumming, onde apenas conhecemos o aeroporto onde não se fala inglês, chegamos a Dali. Ou a uma Dali. Acrescentaria, a "verdadeira" de hoje, se verdade não fosse um conceito tão abstracto. A estação de autocarros chegou ao terminus de uma cidade sem fim, que parecia um qualquer subúrbio de Lisboa, mas maior. Os mesmos prédios, as mesmas ruas por embelezar, as mesmas árvores por plantar. Agora, de repente, não me lembro se havia marquises. Talvez seja, esta a única forma de distinguir a arquitectura e urbanismo de uma e outra.
Desta Dali, apanhamos um mini autocarro, que se encheu de trabalhadores que queriam chegar a casa no final de um dia não muito entusiasmante. Também aqui as diferenças entre estes e os que usam a Transtejo, pertencem a quem tem gosto por detalhes. Meia hora depois chegávamos a Dali, a turística, a histórica, e para muitos, talvez até para mim, a "verdadeira".
Rodeada de muralhas, casas antigas restauradas, algumas com certeza feitas de raiz para compor melhor o vestígio do passado - afinal,  para além dos fundamentalistas islâmicos, quem é que ainda se interessa por ruínas nos dias que correm ?

Mas não é sobre Dali que vou falar, apesar de Dali estar por todo o lado. Quero contar a falar sobre o que se passa na mesa das refeições da casa onde nos deixaram dormir, e fingir viver, durante umas noites. Dito assim, parece prepotente, estas linhas são minhas, faço com elas o que quiser. Mas, acreditem, é pelo melhor, que interesse teria ocupar este espaço a falar do que não sei ?

As refeições continuaram. Nos restaurantes, a pedir pratos que não sabíamos ao que iriam parecer ou saber. Na casa, a elogiar a comida, mas a apreciar mais a companhia. Não quero desmerecer os resultados culinários daquela que era sempre a que ia para a cozinha. Não quero vos deixar a ideia que não sou boa boca. Mas quando a companhia é assim, faz-se prioridades e estabelece-se importâncias.

Continuarei a falar das refeições em Dali, pois que até agora ninguém me impediu de tal. O dono da casa que pensamos ser um hotel é um soldado reformado. Não fala inglês e mostra com grandes gestos teatrais o que era a sua vida quando trabalhava. Percebemos que envolvia metralhadoras. Tentamos não mostrar que ficamos chocados. O nosso bom anfitrião. O que nos deixa beber cervejas o que sorriu quando lhe explicam o que dizemos.
A China, apesar de não gostar de guerra, tem que ser agressiva, explica-nos Wang. Ele sabe o que o mundo diz do seu pais. Quando atacamos é porque não temos escolha. Existe sempre escolha, mas desta vez não replico. O jantar esta maravilhoso e tenho receio de ser mal compreendida ou de haver erros na tradução.
Falamos do mundo em geral e do mundo chinês em particular. Wang repete uma frase-chave durante o resto da noite amo esta terra, mas não gosto deste pais. Precisa-se de dinheiro para tudo, precisa de dinheiro para viver, quando tudo o que quer é olhar para as estrelas, rir com os amigos, beber cerveja. Todos querem. Poucos o fazem. A razão permanece um mistério. Sabemos como ser feliz, mas depois perdemo-nos no caminho, e temos mesmo que comprar um carro e uma casa e mais uns sapatos. Somos mentes simples e distraídas, mesmo as que julgamos mais complexas. Todos partilhados imagens de sabedoria, mas meia hora depois estamos a comprar um novo sofá porque o outro estava velho. E a gastar o tempo que trabalhamos para ganhar esse dinheiro em algo vão. Sinto-me inteligente neste mês em que gasto apenas em experiências que me fazem feliz. Mas não tenho ilusões acerca da minha vida sedentária. Serei como os outros. Com sorte, talvez apenas um pouco menos.

Wang abriu um negocio com um amigo e o dinheiro do pai. Compa blueberries aos agricultores chineses e vende-os a preço alto a Singapura e a Hong Kong. Mas este ano correu-lhe mal. Culpa a corrupção. Informa-me que o presidente eliminou todos os corruptos, faz um gesto brusco perto do seu pescoço e agora acredita que tudo vai correr melhor. Gostava de ter acesso à campanha de propaganda que o convenceu disto. Wang é um crente, mas os seus olhos não estão fechados. Preferia que houvessem dois grandes partidos, uma boa oposição, seria mais equilibrado, acredita, mais justo e eficaz. Fico admirada com a sua franqueza, com a sua critica aberta ao governo. Assim como fiquei admirada por ver tantas famílias com vários filhos. A politica do filho único não é assim tão massiva como julgava. Não deixa de ser surpreendente que uma pessoa como eu, com acesso a toda a informação que esta na internet, a jornais e a revistas, tenha uma imagem tão errada do mundo que a rodeia. Questiono sobre o que andam as fazer os orgãos de comunicação social. Questiono-me sobre como escolho as minhas fontes de informação. Com a actual questão dos refugiados, por exemplo, não tenho mãos para contar o numero de debates a que assisti, onde o que mais salta aos olhos é a ignorância profunda do que se passa no mundo. Vivemos numa espécie de idade medieval, onde a informação não nos chega, mas estamos convencidos que percebemos como o mundo funciona. Como provavelmente os cavaleiros do século X.
I love this land, I hate this country. E sorri.
O chefe da sinal e bebemos todos ao mesmo tempo. Kempei. All in.

...

Rei da Luz explica-nos que a casa onde dormimos tem muito sucesso entre os turistas e viajantes chineses, porque é muito antiga, mais de dois séculos e é feita de madeira. Os chineses gostam muito de madeira, é um elemento natural. Torço-me na cadeira. Imagens das lojas dos chineses nos subúrbios de Lisboa invadem-me a cabeça, centenas e centenas de brinquedos e todo o tipo de objectos em metal correm de um lado para o outro. A etiqueta "made in China" por todo o lado. O que os europeus gostam. Não deixa de ser um revés da medalha divertido, esta coisa da ignorância mutua. Nem sequer entro em detalhes, o surreal parece-me demasiado enorme. Culpo a cerveja, sorrio e concordo que os chineses têm razão, a madeira é realmente um material nobre. E não falo sequer sobre o que vi no Laos. A sua desflorestação das florestas primarias por companhias chinesas, para satisfazer o seu bom gosto. Guardo todas estas informações para mim, agora para vocês.
Como é absurdo o mundo em que nos movimentamos. O jantar é novamente delicioso. O meu anfitrião explica-me que a galinha é do campo, da boa, nada como a galinha do KFC que se vende agora na praça principal. Parece convencido que os chineses têm bom gosto, mas lembro-lhe que o KFC também tem muito sucesso na China... Lembrando-me que a mesa onde tenho passado os meus dias não é a China e que provavelmente não sabe muito mais da China do que um europeu do outro lado da internet. Dificilmente sabemos e conhecemos o pais onde vivemos. Acreditamos no que queremos acreditar e procuramos provas junto a fonte e pessoas que nos vão confirmar o que queremos. Não sei como furar esta barreira do preconceito, um degrau mais que seja.
People are strange, acrescenta Wang e encolhe os braços. O anfitrião mostra-nos o copo para nos lembrar que é hora de beber. To strange people !
Apesar de haver nuvens no céu há estrelas que teimam em brilhar : à deles ! à nossa !
E com este remate metereologico me vou. Vamos todos, se quisermos, que a viagem, essa, continua.

27.8.15

Quando dei por mim, a viagem acabou

Comecei a fazer o luto desta condição de vida, um mês antes do fim. Num acto de grande disparate, tomei as dores de uma viajante de longa duração, que conheci numa praia, e que estava prestes a regressar a casa. Aproximei-me tanto, que me transformei. E sofri com ela o final do que se quer permanente. Disse-lhe adeus quando subiu ao barco e recomendei-lhe que comesse muitos gelados, uma das compensações a que iria recorrer, tinha-me confessado.
Ao jantar, o meu filho disse-me que queria muito comer queijo quando voltasse a casa, a minha filha queria beber agua da torneira, o Francês suspirou por um copo de tinto e eu suspirei por Africa, completamente fora de contexto.
Depois o tempo passou, e tivémos um ultimo mês de viagem muito grande e muito cheio, esqueci-me de casa e das dores da chegada. O tempo, esse, não se esqueceu de nada, e agora estou aqui. Chove, ainda por cima, os meus filhos vieram com duas baguettes e meia saidas do forno. Enchemos tudo com manteiga da Bretanha, que se derreteu e as baguettes estalaram quando as mordemos. Foi bom.
E eu agora escrevo.
Ontem, quando fomos à cave buscar os cartões do que resta da nossa vida anterior, encontrei um livro solto. Na contracapa amarela estava escrita uma frase tão a proposito com o que estou a viver que quase tenho pudor daqui a transcrever. Mentira, não tenho : "é preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta ja."
Parece coisa de filme, esta coincidência, este ano que vivi.

Na rua, perguntam-me como é que foi. Como é que se conta um ano inteiro cheio de tudo ?
Voltei para casa, sem ter percebido onde é que a minha casa era.
E agora estou aqui. Que recomece o jogo.

29.7.15

De um lugar onde não nascem as coisas

A praia é, e deve para sempre ficar, um lugar estéril. Que a sociedade moderna se dirija ao litoral para passar férias, é um sinal evidente que é a busca da não-produtividade que o ser humano visa, quando lhe dão liberdade. Vivemos numa sociedade anti-natura. E a perpetuamos.
Posto isto, que não se espere grande coisa das linhas que seguem. Fica o aviso. 

Estava ainda às voltas em planos e vontades, na minha sala com vista diagonal para o bosque de Saint-Cloud, nos subúrbios de Paris - perto de onde nasceram os meus filhos e onde, com alguma histeria e falta de controlo, me senti morrer – quando as ilhas Perhentians na Malásia se começaram a impor como uma evidência. Descrições de ovos de tartaruga a estalar e pouca precisão sobre datas e factos, páginas de literatura sem forma, mas com conteúdo suficiente para me levarem até aqui, hoje : um quarto sem sofá, mas com ar condicionado, à frente de um mar transparente. Ar condicionado à hora da sesta. É mais fácil falar de falta de conforto do que a viver, como todos podemos calcular, mesmo à frente de um écran de computador.

Na ilha grande das Perhentians acordamos mais cedo do que queremos. Por volta das 6 horas, macacos com cara quase humana sobem às árvores que dão para o telhado do nosso bungallow e deixam cair os caroços dos frutos que calham comer. Um estardalhaço. Ao princípio, pensámos irritados que seria alguém sem sentido de oportunidade que começara a fazer obras. Não queremos saber de renovação e modernidade assim que acordamos. Ninguém quer. Primeiro o café.
Depois percebemos que não era a culpa de alguém da nossa espécie e passámos a ser acordados bem dispostos. Menos do que às cinco, quando a mesquita da ilha pequena lembra a quem faz o jejum do ramadão que o sol está quase a aparecer. Como se houvesse uma ordem para a tolerância do despertar matinal : o instinto do macaco, a religião dos outros, a ordem e o progresso. Pouco tem a ganhar o hino do Brasil, antes do suco de mamão do pequeno almoço.

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Nadamos até à plataforma de onde se podem ver as tartarugas e esperamos ver uma a vir à tona de   água para respirar. Invariavelmente é a minha filha que as vê primeiro. A minha filha que se distrai tantas vezes quando lhe falo de gramática. Mergulhamos e ficamos à superficie a ver as tartarugas pastar no fundo do mar. Parecem momentos eternos, até que um barco cheio de mergulhadores nos vê e se aproxima. Câmaras impermáveis, excitação, lembranças, indicações de zoom, posterioridade. Todos com tanta pressa.
Fugimos, com maior sucesso que a tartaruga.

Não sou a pessoa mais insensível à face da terra, pelo que não é com surpresa que me sinto emocionar para além do razoável, quando estou debaixo daquela água, a olhar para uma tartaruga e vejo um dos meus filhos passar a nadar a fazer-me sinais para me indicar que viu outra tartaruga mais à frente. Todas as mães deviam ter uma parte do mar exclusiva, para elas, para os seus filhos e para as tartarugas.
Maldigo os grupos de mergulhadores, mais do que os grupos de estagiários que podem irromper numa sala de partos. Existem momentos sagrados, mais inesperados do que outros.

Pelas ondas da internet um amigo que anda a viajar mais à frente, diz-nos que devemos partir. Pulau Kapas é melhor. Seguro. O paraíso fica sempre mais além, já sabemos. Mas a curiosidade não nos deixa descansar. Não somos cool.
Speedboat. Autocarro. Apelo à oração de uma mesquita. Speedboat. Pulau Kapas. Selva. Mar. Coral. Peixes. Aqui. Agora.
Os meus filhos fazem amigos rapidamente no primeiro dia de praia e eu tenho que admitir que também. Todos precisamos de outros. Conhecemos uma família que acaba esta semana a sua viagem de um ano, a mãe está particularmente abatida. Sinto uma empatia maior do que é confessável.
Não se pode parar o tempo, não se pode parar o tempo.
Quero saber como é, mais do que quis quando encontrámos, semanas antes em Kuala Lumpur, uma outra família que estava a começar o seu ano sabático. Não sei se continuarei a seguir a sua aventura, quando a minha acabar.
Não sei porque me lê, quem ficou em casa. Não quero ler. Nem sequer sei se quero escrever. A vida não está aqui nos textos. Não está, não esta.

Outra família que encontramos no mar, prepara-se para mudar de vida, depois de viajar decidiram ir viver para a Nova Zelândia. Não são motivos financeiros que os chamam é o desconhecido é outra cultura. Sem exageros é outra vida. E outras vidas, eu quero conhecer. Este assunto sinto-o como um futuro. Deste assunto, quero aproximar-me. Falamos até tarde na noite em portuñol. São espanhois e italianos. O assunto que ainda não se viveu, não se esgota nunca.

...

Debaixo de árvores, julgando-nos longe dos lagartos gigantes, falamos do que vamos fazer depois, todos queremos mais, todos sentimos as vidas a correr, todos sabemos o que temos a fazer. Alguma coisa. Nova Zelândia para uns. Novos anos sabáticos para outros. Tudo para mim.
Alguém grita na água, um cardume de peixes-napoleão passa do outro lado da barreira de corais. Começamos a correr em direcção ao mar e nadamos o mais depressa que conseguimos.
O espectáculo é magnífico. Na verdade, às vezes, o tempo pára.
Não acreditem sempre nos relógios, são apenas máquinas.
Olho para os peixes e olho para estes homens e mulheres e sinto uma energia vital. Claro que não sei explicar e claro que pareço ridícula a tentar fazê-lo. A energia vital de quem tem esta urgência calma. De quem sofre. De quem vive. De quem sabe que não pode parar o tempo como e quando gostávamos de escolher. De quem vai tentar mesmo assim.

Entretanto, viemos embora, alguém nos disse que Kapas não era nada, comparado com as ilhas Gilli na Indonésia. Entramos ontem no último país do nosso ano. Aterramos em Lombock, negociamos um preço para nos levarem directamente ao porto. Entramos num barco de transporte público demasiado cheio, tentamos não partir os ovos, não acordar quem aproveita para descansar, não nos preocuparmos com a água que entra no barco. Os meus filhos refazem sistematicamente o cálculo para saber em que direcção devem nadar, no caso de naufrágio. Lombock ou Gilli. Chegamos de tarde. A maré está vazia, não se pode nadar nos corais, temos que esperar pelo dia a seguir. Promessas de fundos marinhos tiram-nos a vontade de comer peixe. Os meus filhos ficam a olhar as estrelas do mar e uma menina fala-lhes de um templo debaixo de água que existe em Bali. Não sabemos se depois, devemos ir para oeste em direcção, a Bali de que todos nos falam bem ou mal, em direcção aos vulcões em Java ou se devemos ir para Flores e depois continuar mais a Este, para que a Calita nos leve a beber cerveja em Dili.
Amanhã vai haver alguma ondulação por causa da lua cheia. Gostava de saber que astro se vai ocupar de mim no ano que vem. Hoje, por exemplo, sinto-me cansada, mas isso não é importante porque não vai mudar nada. O Stéphane também acredita que alguma coisa ainda é possivel e, por ora, basta-me. Continuamos, havemos de parar o tempo mais à frente.

11.7.15

Em Malacca com Elisabeth de York

Quis vir a Malacca atrás das historias que aprendi na diagonal na escola. Hoje em dia, diga-se de passagem, parece-me que tudo o que aprendi na escola foi na diagonal. Não é necessariamente mau, aprender-se na diagonal, eu nunca direi o contrario. Logo eu que, para grande desespero de quem partilha as noites comigo, adopto a diagonal como a minha posição preferida para dormir. Não o faço por mal. Evidentemente. Nem quem quer incutir algo nas cabeças das gerações vindadoras. O problema é de quem pensa na escola como um fim, quando não é que um principio. Lembro-me dos professores que começavam as aulas a escrever o sumario no quadro preto e depois começavam a dar a lição. Isto pode induzir a erro. Toda a escola é um sumario. Uma proposição. Os outros não percebem isto. E depois, no final, perguntam que notas tivemos, em vez de quererem saber onde vamos com o que começamos a aprender. Olha, eu, por exemplo, calhou-me ir a Malacca.
Chegamos cedo à fonte da rainha Victoria, rodeada de prédios vermelhos, erigidos pelos holandeses quando aqui mandavam. Isso e por rickshaws decorados com a Hello Kitty e as bonecas do Frozen. Não percebo nada de marketing, não sei para que tirei um curso. Se alguém me dissesse que ia decorar a sua bicicleta com peluches, luzes led e apetrecha-la com um sound system para chamar quem por aqui passa, diz-lhe-ia para se dedicar antes aos pasteis. De nata ou de bacalhau, à escolha. Mas, pelos vistos, aqui ninguém quer saber de pasteis, já os richshaws de natal com o espírito das feiras de Corroios encarnados, fazem um daqueles sucessos.
Mas, como ia dizendo, chegamos cedo a Malacca, o autocarro de Kuala Lumpur demorou pouco mais de uma hora para nos trazer aqui. Tenho que vos falar do que nos aconteceu em Kuala Lumpur. E no Japão. E na China. Mas sou agora cheguei a uma praia, só agora me estou novamente a aborrecer. Já vos falarei da praia : é paradisíaca. Temo que os meus filhos nunca mais me deixem sair daqui.
Fui a primeira a chegar a Malacca. Depois do Afonso de Albuquerque e todos os outros, claro. Uma senhora com uma idade difícil de adivinhar vem me propor um quarto simples. Fala um inglês perfeito, daqueles ingleses que podem estar a falar do peixe que compraram no mercado, mas vão sempre parecer mais inteligentes. O inglês em questão, vem de York, soube-o mais tarde. A senhora vem de muitos sítios. Esta é a historia da nossa vinda a Malacca e do meu fascínio apenas com um precedente por Elisabeth de York. Depois tenho que vos contar acerca do precedente.

Elisabeth leva-nos pelas ruas da little India, explicando os edifícios, os restaurantes, as historias e os gatos. Eu opto por não olhar para o Francês, no caminho. Tínhamos decidido não irmos atrás do primeiro que nos aborda na rua, era para sermos racionais, recolher informações, analisar, estabelecer hipóteses. Mas eu, entretanto, decidir não decidir e seguir Elisabeth. Não vou entrar em exageros, mas se ela me pedisse, ia até ao fim do mundo. Na Argentina. Não é um mau sitio para se ir. Sei-o agora.
Elisabeth leva-nos para uma casa visivelmente a precisar de obras. Parece que o dono a telefonou, estava ela na sua vida em Singapura, para lhe pedir ajuda. Trata-se de um velho amigo, que por causa do álcool e das noitadas, viu-se acamado, sem forças nem saúde para gerir a guesthouse. Entretanto, recusa-se a ir ao hospital, onde não poderia beber álcool, nem fumar cigarros. Quando explico isto às crianças, respondem-me chocadas que isso não faz sentido. Ainda não têm a idade suficiente para perceber que nem sempre a saúde é o mais importante, que existem outros princípios e prazeres, mas não sou eu que lhes vou explicar. Continuem a comer cereais sem açúcar, meus queridos e o vinho tem um cheiro horrível sim senhores.
A casa já deve ter sido os seus tempos áureos, vejo fotos com pouca cor de festas hippies pregadas nas paredes, descalço-me e subo as escadas atrás de Elisabeth. O Francês senta-se no hall, fazemos como quiseres. Digo que sim, com um sorriso a um quarto com a pintura a cair, uma mostiqueira cheia de buracos, uma só cama que range e uma promessa de colchões para os miúdos. O Francês vai-me matar. Estou disposta a pagar com a vida as historias que vou ouvir, em inglês de York.
Quando Elisabeth vai dar de comer aos gatos do bairro, vamos à procura dos vestígios portugueses no centro da cidade. Faço ares de conhecedora e debito tudo o que me lembro acerca do estreito de Malacca. Muito pouco, pouco mais do que o sumario, temo.
Subimos ao Monte de São Paulo para ver a vista, o sol a pôr-se, o estreito, a nau portuguesa, a fortaleza, ou o que resta dela e todas as esperanças que aqui nasceram e morreram. Interesso-me, por ora, pelos nascimentos de outrora. Os arranha céus e os centros comerciais não me interessam, não são o meu futuro.
No dia a seguir, corremos para dentro da nau-museu « Flor de la mar ». Teria tendência para dizer Flor do Mar, mas o português é uma língua que muda tanto que aceito tudo. O que é que eu posso saber ? No final, os meus filhos sabem mais do que eu aprendi na escola. E isto não sou eu a fazer-me de mãe alternativa que tira os filhos da escola, para lhes ensinar melhor ou diferente. Isto é a realidade. Pronto, e também sou eu a fazer um bocado de mãe alternativa. Pronto.
No barco havia muita informação, mas desconfio de alguma desinformação também. A bandeira que mostram dos portugueses, é a actual e não a que representava Portugal em 1511 e mostram armas anacrónicas. Falo aos meus filhos, da relatividade da Historia, da teria da conspiração e da importância do orgulho da nação para alguns governantes. Que é sempre bom ouvir-se varias versões, a versão malaia que conta que os portugueses eram uns brutos sem educação nem senso de diplimacia, a versão portuguesa de fama e gloria do período dos descobrimentos. Ficamos também a saber que os portugueses tinham canhões muito potentes e destruiram o palacio do Sultão. Do lado português dizem-nos que o sultão era nomada e vivia em tendas, nenhum palacio foi destruido, a apropriação de Malacca foi feita pacificamente. A versão malaia, a versão portuguesa, escolhemos não escolher e em vez acumulamos, não temos nada a dizer ou a argumentar, vivemos bem com a pluralidade e o mistério. Que outro remédio se pode ter quando se viaja para aprender ?
Mais tarde, fomos ao que resta da comunidade portuguesa, a Elisabeth disse-nos para irmos ainda nem sequer sabia que eu era portuguesa. Não sendo ainda o fim do mundo, até onde eu iria por ela, tive a sensação de estar a visitar o fim de um certo mundo português. Isto contaram-nos à frente do museu da herança portuguesa. Mas isso foi depois. Antes comemos.
Em Malacca quase não encontramos vestígios dos portugueses : a porta de Santiago, restos da fortaleza « A Famosa », um rancho folclórico que não vimos e pouco mais. Existe uma little India e uma little China, que trouxeram os ingleses, mas não existe um little Portugal, como em nenhuma cidade onde vivem portugueses, tenho a impressão, mas ainda tnho muito para ver.
Tivemos que apanhar um taxi para o the portuguese settlement, please. Estava calor, as casas não pareciam particularmente históricas, não havia uma igreja, que o sultão não deixa construir, não havia vivalma. Fomos comer ao restaurante Lisbon, ao menos não sairíamos dali de barriga vazia.
No restaurante escolhemos um peixe e uns camarões num menu inglês. Perguntei se não tinha em português, não recebi em troca o nome do peixe em inglês, mas fui apresentada a um grupo ao lado. Disse que vinha de Lisboa para simplificar. Disseram que vinham do Porto, de seguida fizeram uma ou duas alusões sobre a superioridade do Norte, como muitas vezes fazem, com mais ou nenhuma piada, as pessoas do Norte de um pequeno pais do Sul. Não me interessam conversas regionais que ja ouvi vezes demais : eu quero que me falem do mundo, por favor.
E falaram. E cantaram. Não em português do acordo ortográfico em voga, mas em português do século XVI. No museu do povo em Malacca, chamam-lhe « cristão ». 
Félix, um senhor de aspecto malaio com uma t-shirt d um encontro em Timor já esteve em Portugal, conheceu a Mariza e partiu em tournée. Cantou tianica do Loulé e o malhão, malhão, continuei a comer. O molho estava excelente, o peixe fresco. Nunca soube como se chamava. Mas depois parei de comer, nem só do estômago vive o homem. Félix cantou uma musica sobre os marinheiros, num português arcaico. Se era a Malacca de 1511 que me tinha chamado até aqui, tinha-a encontrado.
Na mistura de sangue, no que fica quando tudo acaba. 
Os portugueses de Kuala Lumpur, uns de Moçambique, outros do Porto, esta portuguesa que ainda não sabe de que terra é e uns três franceses, entraram no museu, um acumulado de um doador vendedor de antiguidades. O responsável veio com a chave e abriu de propósito para a estranha comitiva e mostrou-nos as fotografias do inicio da aldeia, quando os ingleses os expulsaram do centro, no lugar da actual chinatown. Pediram uma terra ao bordo do mar e umas redes para pescar, contruiram casas de madeira e ficaram a misturar-se cada vez mais com a natureza malaia, o mar e as mulheres. Disseram que um português podia chegar a ter três mulheres malaias, muito peixe fácil de pescar e nenhuma razão para voltar para o Terreiro do Paço.
A aldeia esta condenada, mas ninguém parece agitar-se por causa disso, o dinheiro de Singapura tem grandes planos para aquele terreno, uma marina, um edifício de luxo, cada família vai receber uma bela soma e vai partir. Faltam apenas 10 anos para que a data definida pelos ingleses para cedência do terreno. Falta pouco mais de um mês para que tenhamos que voltar para casa. Também nos não vamos lutar.
Em aparência.

Quando chegamos de noite à Guest house, ou ao que resta dela, encontramos Elisabeth a jogar à Pacience. A sanguessuga que existe em mim acorda. Em troca de respostas sobre o nosso dia, puxo pelo fio do passado. Sete anos viveu na Índia, ensinou inglês na Indonésia e viajou, viajou, viajou. Elisabeth de York tem 81 anos e viu mundos que agora ja não existem. Começou a correr mundo com vinte numa viagem à terra santa, quando ensinava inglês a crianças da aristocracia espanhola. Depois a vida foi acontecendo e hoje tem historias para contar durante muitos Invernos ingleses. Volta a York no final do mês - ja avisou o amigo - para ver amigos e familiares, mas não vai ficar. Não tem razões para ficar. Uma vez na Índia uma senhora que sabia mais do que os comuns mortais, disse-lhe que tinha rodas em vez de pernas e que ia morrer a dormir, que não se preocupasse. A partir dai, Elisabeth continuou a viver como sempre quis, mas com um bom pijama. Perguntam-lhe muitas vezes se viaja sozinha, com aquela idade. Responde que não, viaja com a sua bagagem. Temos que ter cuidado com os outros, podem envelhecer-nos mesmo sem ser por mal and we don't want this, do we ? Espero que continue por muitos e bons anos a fazer o que muito bem lhe apetece, Elisabeth.
Que os nossos caminhos se voltem a cruzar, longe do que muitos insistem em chamar de casa.

No final do ultimo dia em Malacca, passeamos no centro da cidade. Numa mesma rua, a rua da harmonia, encontramos, um templo budista chinês - Sanduo, um templo hindu dedicado a Vinayagar, uma mesquita e alguns altares para os deuses de lojas ou casas. Estamos no meio do Ramadão e o sol parece que se apaga, neste fim de tarde. Contemplo Shiva e Ganesha enquanto ouço o apelo à oração em arabe, duas chinesas passam por mim a discutir com caixas de incenso nas mãos. Malacca pode não ser o centro mundo como o conhecemos, mas ainda se encontra no meio de um equilibrio fundamental. 

13.5.15

Banho Maria numa ilha tailandesa à frente do Cambodja

Por vezes, fico muito tempo sem escrever, ou porque está tudo a acontecer ao mesmo tempo ou porque não quero escrever o que estou a viver, sem antes escrever o que vivi. Depois perdem-se os detalhes importantes e a reanimação nem sempre é possível. A vida, essa, continua a dar-nos tudo o que acha que devemos ter. O bom. O mau. Nem tinha nada que ser diferente. Era o que mais faltava. Continua célere e tenho provas : neste que é um dos anos mais vividos da minha vida, tenho vindo a envelhecer mais do que julgo ser habitual. Talvez existam rugas especiais para os anos especiais. A ver se as guardo. Os cabelos brancos, esses, são iguais aos outros. Também é verdade que viver assim, cansa.
Não me estou a queixar.

Tenho raros dias em que paro. Estou do outro lado do mundo e fico um dia inteiro no quarto com o ar condicionado ligado. Aproveitamos para avançar no programa escolar, lemos, vemos uns documentários, os miúdos brincam com legos, o brinquedo mais improvável para se levar numa viagem assim.
Lá fora, a vida mostra-se ainda com mais força do que é costume, desse lado do mundo. O barulho das buzinas entra pelas janelas fechadas. O motor das motas. Os pregões de quem vende mangas, durião (será assim que se escreve em português, o nome deste fruto que cheira tão mal e que é proibido em todos os autocarros e hotéis?) arroz, facas, cimento e, essencialmente, coisas que não vamos saber, porque nestes dias não nos vamos levantar para descobrir.
A minha filha fica feliz, tem sempre projectos em mente e com esta vida movimentada nunca os pode realizar. Hoje empenha-se na elaboração de um jogo de vídeo sem vídeo. Desenha e corta personagens e acessórios. Ontem tinha que desenhar todos os robots que estavam a viver na sua cabeça, havia urgência porque eram cada vez mais. O meu filho progride mais do que é suposto e desenvolveu uma paixão obscura pela matemática. No outro dia, viajamos com um casal de professores primários que nos avisou que ele sabia mais do que devia saber na primeira classe.
Isto é tudo tão absurdo.

Não escrevi aqui sobre muitos dos sitios que visitamos e que nos marcaram. Tenho muitas historias dentro de mim. E, tal como a minha filha, sei que há urgência. Eu sei.

Escrevo agora de noite, com todos a dormir, menos os mosquitos. Malditos. Estamos a viver numa casa em cima de estacas, numa praia quase deserta da ilha-elefante da Tailândia. Estamos na época das chuvas, e ontem trovejou tanto, com tanta força, que comecei a pensar se estaríamos a salvo no nosso bungallow de madeira e rede. 

Ouço as ondas lá fora e penso na minha mãe. Esqueço-me sempre de lhe dizer qualquer coisa no dia da mãe. Posso alegar a confusão natural de quem vive em França, onde o dia da mãe é noutro dia. Mas a verdade é que não gosto deste dia. Nem de nenhum em especial, que existe para me lembrar de algo que não me esqueci. Penso hoje na minha mãe, porque um dos sons que ela mais gosta é do som das ondas a morrer na praia. Ela vai detestar a palavra morrer. A minha mãe é a rainha dos eufemismos. As ondas a sentirem-se um bocadinho mal na praia. As ondas a virem beijar a areia salgada. As ondas a acariciarem a terra. Sei que ia gostar desta temperatura da água. Demasiado quente para mim. Filha ingrata do continente africano. Lembro-me de me ter contado da primeira vez que foi à praia em Portugal, numa praia a apinhar na linha. De ter corrido para o mar e de ter mergulhado, com confiança, num mar tão gelado como ela nunca tinha imaginado. A minha mãe merece este mar morno. 
Mas sou eu que estou aqui. A fazer tempo para ir para outro lado.

...

O Francês não é o homem que eu pensava. Podem dizer que são detalhes. Mas ele não é o senhor perfeito que eu pensava que era. Nem tão racional. Uns vizinhos nossos fizeram uma volta ao mundo antes de se casarem, para terem certezas. As certezas não existem, sabemo-lo bem. Mas não deixa de ser uma ideia séria. Hoje sei que podemos viver uma vida inteira com um homem e não saber quem ele é. Podemos viver a vida inteira e não saber quem somos. Viajar não é a solução, nem foi à procura de sentidos para a vida que decidi viver esta experiência. Mas hoje julgo conhecer-me um bocadinho melhor. Os defeitos, os defeitos. E o "meu" Francês. Ninguém é de ninguém, eu sei, eu sei.
Na outra noite acordou-me. Tínhamos que ir à China. Comer como os chineses. Ir à casa de baho como os chineses. Falar alto como os chineses. Ser chineses. São tantos. Mais quatro, ninguém ia notar. Tinhamos que ir à China. Melhor, ir para a China. Não como tínhamos pensado, mas de outra forma, mais tempo, mais intenso, ele ia ensinar-nos o que sabe de mandarim, uma imersão total. E eu, que era assunto que podia esperar pelo pequeno almoço, que devia ter tido um sonho, que se acalmasse e me deixasse dormir. Este tipo de situação nunca aconteceu na vida que levamos quando não somos vagabundos. Supostamente eu é que acordo a meio da noite, eu é que sigo a lua e as hormonas, eu é que tenho vipes e cenas maradas. Eu é que tenho mesmo que fazer uma coisa. E ele o conselheiro, o ponderado, os quadros excel, os contratos com o banco.
A liberdade tem com cada coisa. 
Corremos o Cambodja de Este a Oeste, paramos em Phnom Phen e em Siem Reap, senão nunca nos iríamos perdoar. Prometemos voltar com mais calma, quando esta voltasse. Que agora não podia ser, havia uma loucura a satisfazer e, desta vez, a culpa não era minha. Abençoada culpa. Bendita graça. Naquela noite, o Francês teve um arrepio, esta nossa viagem vai acabar dentro de meses. Depois é o escritorio novamente, e o tempo a passar e a vidinha a comandar. Temos que mudar o que estamos a fazer. Rapido. Já. Ontem. O stress, o stress. Como se na outra vida, na vida trabalho-casa, nunca se podesse ter dado ao luxo de ser louco. A louca era eu. A livre. A que não tinha emprego, nem horario. A que podia sentir angustias e vipes e sonhos e simular depressões. Ele tinha que ser de outra forma. O senhor Atlas. 
A liberdade devia ser obrigatoria, é o que vos digo. 
Uma fronteira caótica depois. Torres Khmers, trocadas pelo retrato do rei da Tailândia e estávamos novamente de Banguecoque. Frente à Embaixada da China. Todos os documentos e explicações. O trajecto que vamos fazer. Nos, que nunca sabemos com mais de uma semana onde é que vamos. Com mais de um dia. Por vezes, com mais de uma hora. Tudo certinho, desta vez. A provincia de Yunan, os Himalaias, O Shangri-la. E depois Pequim e Xiam. Deviamos ter planeado de outra forma. um ano inteiro na China. O bilhete de avião comprado. E agora é esperar. A roleta do visa da China. Os outros turistas de longa duração tremem quando falamos do visa da China. Uma holandesa viu-se recusada, sem apelo, nem agravo, teve que pagar os custos de anulação do bilhete, dos hoteis, perder uma semana para mudar de planos.

Por isso, não sei em que pais vou viver para a semana que vem. A espera em Baguecoque tornou-se insuportável, ou um bocadinho chata, por muitos arroz colantes com manga que comesse. Viemos nadar em mar morno, numa ilha em baixa estação. Lutar com os elementos vai nos fazer mudar de ideias. Chuva torrencial. Trovoada. Mosquitos.Tubarões-baleias.
Estamos, portanto, oficialmente em banho Maria.  

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