18.9.15

Um mês chinês sem facebook II



Xizhou, o mesmo mês de Maio de 2015 



Acordámos tarde e com nuvens. Dissemos, a todos os que nos perguntaram, que não queríamos apanhar um táxi para uma aldeia que fica mesmo já ali. O preço parecia-nos exorbitante, visto da China que trabalha.
Ninguém sabia falar inglês, mas também ninguém o esperava. Passamos uns quinze minutos a andar de um lado para o outro a dizer Xizhou como podíamos. Não há autocarros, mentiam os taxistas sem bigode. Hoje não é possível, mentiam os condutores clandestinos, têm que vir comigo. Um policia indicou-nos uma rua que subia, e em cima, apanhamos um autocarro que nos deixou ainda mais em cima. Tínhamos que sair e trocar de autocarro, tentando novamente a nossa sorte com a palavra Xizhou. Quando foi o meu filho a dizer, perceberam à primeira. Ha-de haverum nome para este tipo de preferência descriminatoria. Novo autocarro e seguimos em direcção ao que os nossos amigos de ocasião tinham chamado de uma aldeia "interessante" chinesa. 
Chegamos e andamos. Garagens, lojas de ferramentas, drogarias, mercearias. Perguntamos onde era o centro e andamos e perguntamos e andamos. Demos a volta inteira à aldeia e não demos com ele. Uma aldeia chinesa tem forçosamente aspas para um ocidental. Uma aldeia chinesa tem, por exemplo, 40 000 habitantes. Mas mesmo que a nossa ideia de aldeia não seja a realidade que encontramos, vamos encontrar, ao menos, ruas calmas e desertas à hora do cultivo do arroz. E vejam como ficamos reconfortado ao encontrar algo que conhecemos. Sim, estamos numa aldeia, pensamos, satisfeitos.
Sentimo-nos perdidos a cada esquina, mas apetece-nos tanto entrar nas porta entreabertas, que continuamos a avançar no labirinto. Numa das portas de madeira alguém escreveu em inglês, com tinta branca improvisada, que se pode entrar nesta casa bai, por 3 yunnans. Vê-se bem que a industria do turismo chinês ainda não passou por aqui. Suspiramos de alivio. O efeito surpresa das belas casas perfeitamente remodeladas de Dali, está a desaparecer, não queremos ver mais pessoas a comer cupcakes ao pé de uma porta da dinastia Duan, com aspecto novinho em  folha. O passado deve parecer passado. Aqui também temos as nossas certezas e ficamos confusos quando não é assim.
Uma senhora vem espreitar, de vez em quando, à porta para ver se algum visitante perdido, como nos, poderá estar interessado em ver a sua roupa a secar ao vento, ou o seu pai sentado numa cadeia de verga. Os visitantes são pessoas estranhas, já se sabe.
Entramos, um patio Bai, um corredor, um outro pátio Bai. Entramos numa casa e perdemo-nos novamente, como se estivéssemos agora numa outra aldeia, dentro de uma aldeia. A desarrumação é omnipresente. Ninguém se ocupa de nos. Ninguém fala inglês. Ninguém se esforça. Podemos andar por ali, como queremos. Não deixo os meus filhos entrar num quarto de criança. A criança não está lá, largou os brinquedos no chão antes de sair para a escola. Valores de propriedade privada devem estar mais presentes em mim do que julgava. Continuamos a deambular nas partes que consideramos publicas, mas não temos a certeza do que estamos a fazer. Avançamos, ninguém nos diz o que podemos fazer, nenhuma corda como nos museus. Sentimo-nos à vontade. Sinto-me sempre em casa, quando estou numa casa desarrumada. Aqui vive-se é já é muito. Já é tudo.
Vimos a roupa estendida, as colchas, as cuecas. As galinhas à solta, os coelhos nas gaiolas. A cozinha com tachos a aquecer. As camas por fazer. Fomos abandonados e abandonamo-nos.
Como uma mosca com permissão.

Lembro-me da minha vida normal. Nem sempre é preciso colocar as aspas na palavra normal. Lembro-me de como vivia, de como sou, na pessoa estranha em que me tornei. De andar sem me aperceber que estava a andar. A cabeça noutro lugar. A curiosidade à frente do écran. A andar de um lado para o outro, sem ter consciência disso. Sem procurar saber mais sobre a pessoa que se senta ao meu lado ou a quem abro a porta. Com receio que a vizinha do segundo andar queira falar comigo de alguma coisa, de ter que fingir pressa, de ter que esconder um tédio dominante. Omnipresente. Não faço ideia de porque é que a China parece-me agora muito mais interessante do que a minha rua, ou o bairro ao lado do meu. Vejo às vezes blogues com fotos de portas comuns, de ruas por onde passamos todos os dias. Não sei o que acorda as pessoas da sua rotina, para conseguirem interessar-se pelo que sempre esta ali ao lado. Eu tive que vir para o outro lado do mundo, uma aldeia onde tudo me é estranho, onde a língua é um mistério, para acordar. Sinto uma súbita pena os viajantes, dos que têm que ir para longe para se admirarem, para abrir os olhos. Quando é que fechei os meus ?

...

Ouve-se uma explosão perto de nos. Uma estudante de belas artes, e os imitadores dos meus filhos, estavam a desenhar uma porta de um templo e deixam cair os cadernos. Não é uma improvável manifestação contra algo, nem uma eminente explosão de produtos altamente explosivos que se armazena aqui como se de arroz se tratasse. A explosão é divina, duas senhoras saíram do templo e colocaram bombinhas num forno para comunicar com os deuses. A comunicação é unilateral, mas bastante ruidosa. A rapariga revira os olhos e quando os tem novamente no lugar, quer ver os desenhos que os meus filhos fizeram, comparam resultados. Apesar da imparcialidade que devemos ter enquanto progenitores, devo aqui admitir que o dela está ligeiramente mais bem conseguido que os dos meus filhos.
Começamos a falar. Não me lembro da ultima vez que tive uma conversa com alguém que não conhecia, quando estava em casa. Muito menos de acabarmos por almoçar juntos. Aos meus filhos costumo sempre dizer que não se deve falar com estranhos. Estou a educa-los como me educaram a mim, vão tornar-se seres perfeitamente integrados na sociedade europeia. E estranhos.
A rapariga leva-nos para um restaurante com ar bastante basico, é estudante em Chengdu e esta chocada com os preços que se praticam nos lugares turisticos. Tem comido sopas de massas instantaneas com as amigas, desde que chegou à provincia de Yunnan. Sentamo-nos e ela vai discutir com a cozinheira o que vai ser o nosso almoço. A conversa dura 5 minutos, ha bastante negociação. Enquanto esperamos, falamos de Paris, a cidade que sempre quis visitar e temos uma lição gratuita de chinês. Ri-se muito quando tento falar, como se dissesse porta de aluminio, quando o que devia dizer era cadeira de madeira exotica. Pensa que faço de proposito. Mergulho no meu cha verde, não entendo o que faço de tão errado assim. Os meus filhos recebem aplausos, um senhor que esta sentado na mesa ao lado, levanta-se e faz parte da lição, pergunta se têm aulas de mandarim em casa. Nado no meu cha entre orgulho de mãe e vergonha de aluna. O Francês safa-se porque é discreto, mas esta convencido que o seu sotaque é melhor que o meu. Francamente não faço ideia.
Nesta altura acredito piamente que quando chegarmos a casa vamos ter aulas de mandarim no XIII arrondissement, o Francês mais pessimista sabe que vamos ser engolidos pela rotina. O momento é agora, consegue dizer apesar da enorme dose de picante que acaba de comer por engano.
Despedimo-nos com grandes abraços, os miudos estão particularmente emocionados com este encontro e falam com grandes exageros sobre a gentileza dos chineses em geral e desta estudante em particular. Dizem-me que deviamos convida-la para vir para nossa casa, para que ela possa visitar Paris.
Não faço ideia de como vai ser a minha vida, quando voltar. Se vou procurar toda a informação queme tem faltado e que me tenho prometido. Se vou continuar a falar com as pessoas desconhecidas que encontro na rua. Se as vou convidar para almoçar, para virem para nossa casa. Ou se vou ficar cinzenta e deixar-me levar pela maré das conversas ocasionais com vizinhos que conheço ha dez anos. Tenho muita curiosidade em saber como me vai mudar este viagem.
Serei suficientemente inteligente para continuar a viagem, depois que esta acabe ?

10.9.15

Um mês chinês sem facebook I




Dali, Maio 2015


Somos novamente raros.
Vive-se contrariado o regresso da fama dos brancos,  quando tudo o que se quer, é o proveito. Os meus filhos reviram os olhos. Parece que estamos na Índia outra vez, pensam alto e suspiram. Estranhamos esta atenção e curiosidade que despertamos nos outros. Esperávamos uma relação unilateral, os curiosos devíamos ser nós.
Parece que ainda existem lugares, onde quem vive o dia-a-dia rotineiro, ainda se consegue fascinar pelo que o rodeia. Nem todos estão mortos dentro dos horários das 9 às 18h. Ainda há lugar para a esperança, afinal. Hoje, aqui, ponham os olhos em nós.

Perguntamos o que fazem as pessoas com todas estas fotografias, que tiram de nós. Dizemos a brincar que, se calhar, vamos parar num fundo de um écran qualquer, ou num grande poster em cima de uma cama de casal. Um dos turistas chineses que nos rodeia, reflex na mão, acha a ideia boa. E tira mais uma foto, sem avisar. Devo ter ficado com a boca aberta e um olho fechado. Devia tirar mais uma, eu mereço uma nova chance. Caramba.
Seguem uma guia vestida a rigor, nas ruas de Dali, mas param para nos observar. Querem viver esta experiência. Interessam-se de perto por nós. De muito, muito perto. Acentuam as mínimas diferenças físicas que existem entre uns e outros. Penso em Marco Polo e em tudo o que não mudou. Começo a ver e a viver com olhos e vontade de privilegiada. Tudo vai mudar. Isto ainda não. E aqui estou eu. Agora.
E os olhos azuis da minha filha, que são iguais aos da mãe. E as pestanas do meu filho, e a barba do francês. Não sou fisionomista, não vejo parecenças, nem diferenças. Entre a senhora chinesa que me quer tirar uma fotografia e eu, não há maior diferença física do que entre eu e a minha melhor amiga portuguesa. Quem vê a humanidade pelo prisma da raça diz que sim. Fazer o quê ? Sorrir.
Say soy cheese.
Os meus filhos fogem a correr. Estão fartos. Os turistas riem e tentam tirar uma ultima fotografia. Coitados dos Beatles.

A velha cidade parece saída directamente dos álbuns do Tintin ou dos filmes de Ang Lee. Está tudo tão restaurado, que me tenho que lembrar constantemente que isto não é a Disneylândia. Estamos à procura de algo, de outra sensação. Fugimos das ruas principais com os bares de cerveja americana e snooker, dos cafés com cupcakes e dos MacDonalds, vamos ficar alérgicos à cultura ocidental no final desta viagem. Vai ser bonito.
Tinha lido na net, um debate completamente sem interesse sobre qual seria a mais bela, se Dali ou Linjiang. Ocorre-me, ocasionalmente, perguntar-me porque passo tanto tempo à frente do computador.

Começamos o dia a aprender como se escreve hotel em chinês, mas rapidamente percebemos que não vai ser assim tão fácil, existem caractéres enigmáticos para hotel, albergaria, hostel, para hospedagem. Para não falar das casas que suspeitamos serem hotéis, mas que não afixam nada à porta. Como não queremos seguir o Lonely Planet, nem conselhos de ninguém em geral, para não arriscarmos acabar num retiro de turistas ocidentais, damos por nós a entrar em restaurantes, casas particulares, casas de massagens e a perguntar se têm quartos familiares, num mandarim que vos poupo. Parece ser este o preço a pagar por se querer fazer as coisas à nossa maneira. Os miúdos preferem não entrar, fazem apostas e riem-se muito com os resultados.
Sinceramente, nem sempre tenho a certeza da utilidade das viagens intergeracionais.

Longe de Huguo road, a rua dos estrangeiros, encontramos uma casa antiga, e não tão bem preservada assim, com uma grande porta aberta. O jardim cresce, mas apenas porque tem boa vontade, as cadeiras estão desarrumadas e há ferramentas de jardim e bricolagem a enferrujar. Mas há também um simpático ser humano, nascido em Chengdu, que sabe falar inglês, nos convida a beber chá verde, promete um nome chinês aos meus filhos e insiste que não podemos recusar o seu convite para o jantar familiar. Presumimos que estamos num hotel e chamamos os miúdos, essa geração vindoura, que entretanto ficou, de fora sob pretexto de guardar as bagagens. E verificar o resultado das apostas.
Não vou estar com meias palavras, porque adoptei uma postura de deslumbrada e tento não ter vergonha de tanta facilidade das emoções e satisfações. Sou uma pessoa cheia de pontos de exclamação nos finais das frases. Apaixonamo-nos pelos telhados, pela desordem e pelo inglês deste chinês. Tão precioso o inglês, depois de um dia inteiro sem perceber nada o que se passa à nossa volta.
Os meus filhos afirmam imediatamente nunca mais querer sair do pé do grande cão Xiong Xiong, que quer dizer urso. E o francês lembra-nos que os bisavós da Bretanha tinham um cavalo a que chamavam coelho e uma vaca a que chamavam cão. Se isto não são razões para se apaixonar por pessoas, por gerações e por povos...

Sentimo-nos bem-vindos, sentimo-nos em casa. Estamos mesmo à vontade, passados apenas cinco minutos. Apetece-me descalçar-me. A hospitalidade chinesa resulta.
A China vai esquartejar, a sabre frio, um a um, os preconceitos que me foram entregues quando anunciei, entre amigos e outros viajantes, que vínhamos para aqui. Vai ser um massacre. Todas as ideias feitas caíram no primeiro dia.
Algumas levantaram-se no dia a seguir.

Sunny, o chinês simpático de Chengdu que fala inglês, cumpre as promessas que faz. Sentado na mesa do pátio da casa, reune-se com um casal que não sei o que está ali a fazer, mas o que é facto é que está sempre ali, de bem com a vida, e discutem seriamente acerca do futuro dos nomes dos meus filhos. Numa folha escrevem, apagam, voltam a escrever, discutem. Quase que parece que é algo sério. Provavelmente é. Os meus filhos estão ao lado, com um ar muito comprometido, como se fossem entrar numa seita ou numa juventude partidária. Noto agora que sou dada a pleonasmos. 
No final, todos parecem satifeitos: tenho um filho que agora se chama Long Fei Qiong e uma filha Long Wu Meng. Sunny, que na realidade se chama Wang Hui - deixemo-nos de facilidades - explica-nos tudo, não há que ficar preocupado. Long quer dizer dragão, que por motivos evidentes, que me escaparam, parece ser apropriado aos dois e depois Fei Qiong quer dizer voar e forte, que é o que um homem deve ser, deve acreditar que pode voar e deve ter força. Mas já a mulher não precisa de nada disto - aqui começo a olhar para o céu - porque o homem já está lá - aqui começo a agarrar numa pedra metafórica e estou pronta a lançar. Wu Mei, significa dançar e sonhar, o que é até bastante salutar, não fosse o carácter meramente decorativo. A minha filha aceita de bom grado o nome e até diz obrigada, afinal, tem sido bem educada ao som e moral dos filmes e das histórias - que recebe de outras pessoas que não os pais, limpo a minha reputação, que é importante - em que o herói é quase sempre um rapaz. 
Protesto, mas apenas recebo em troca um sorriso, o que está feito, feito está. Os meus filhos nunca mais mudarão de nome e eu bem que posso deitar-me ao chão e esbracejar à vontade. Opto por uma atitude digna.

A dona da casa preparou-nos um jantar copioso, dizem-me que foi ela que preparou tudo sozinha e eu contabilizo as horas na cozinha. Duas clientes chinesas são também convidadas, mas dizem-lhes a brincar que têm que trabalhar. Sempre numa amena brincadeira explicam-lhes que a cozinha fica no andar de cima. A rir elas vão e nós preparamo-nos para ir também. Mas as regras são para cumprir. Uma coisa é ser-se chinesa mulher solteira. Outra coisa é ser-se homem, ponto. Ou mulher estrangeira "casada", ponto e virgula e reticência. Protesto. Respondem-me com um sorriso. Bem posso descabelar-me, partir os pratos todos, que a regra não vai ser quebrada. Opto por não ir a lado nenhum, cruzo as pernas delicadamente. E sorrio. Se o meu eu com vinte anos me visse agora, morreria de vergonha. Aos quarenta anos, sei que com uma cerveja tudo passa. Gritarei mais tarde, numa discussão no facebook, pelos ideais feminisitas.

Bebemos cerveja. Não como se fosse algo natural, agarrar no copo e levá-lo à boca de cada vez que nos apetece. Isto não é uma rebaldaria. Bebemos quando o dono da casa bebe e o nosso copo deve estar sempre mais em baixo do que o dos outros. Chama-se a isto respeito, senhores. Sendo que todos e cada um de nós é o outro de alguém. A dado momento deixamo-nos de tretas e bebemos. Mas à próxima repetimos. A cerveja é fresca e com pouquíssimo álcool, mas todos parecemos querer ficar bêbados, por isso, as latas de cerveja sucedem-se sem fim. Rimo-nos muito, principalmente quem não percebe a língua que na altura se está a falar. Estamos sempre servidos quando estamos bem connosco. Há estrelas no céu. O cão nunca mordeu nos meus filhos e a vida na China parece-me verdadeiramente aquilo com que sempre sonhei. Mas nem à quarta cerveja acreditei realmente no que sentia.

Alguns kempei depois e começa-se a falar de casamento.Wang hui, que em português se diz Rei da Luz - os pais queriam que tivesse um caminho luminoso, enquanto que eu apenas quis que os meus filhos tivessem o som "ia" no seu nome, como pode ser fútil uma mãe ocidental - vai-se casar em Outubro. Uma grande festa de um dia inteiro com muitos pratos de comida, elucida-nos.
Diz-nos que vai ter que trabalhar muito quando acabar as férias em Dali. Tem que juntar dinheiro para comprar uma boa casa, um bom carro, não quer um carro qualquer. Apenas assim merecerá uma mulher bonita. As mulheres bonitas querem vidas caras. Pergunto-lhe se valerá a pena o esforço, se não seria preferível uma mulher feia e uma vida fácil. Sorri. Uma mulher feia está fora de questão. Não quer uma mulher feia. My god ! Diz com um sotaque de Oxford, tenho a impressão que aprendeu isto num filme, e leva as mãos à cabeça. Insisto e tento uma rasteira, e uma mulher inteligente ? Não é preferível uma mulher inteligente ? Mas a resposta não se deixa levar pela cerveja engolida : todas as mulheres chinesas são inteligentes. O dono da casa salva-me e leva o copo à boca. Posso finalmente beber. E bebo muito. 
Wang continua, diz-nos que não gosta de trabalhar, que prefere a vida fácil e lenta de Dali. Concordamos todos e bebemos juntos. Kempei. Gosta de acordar às 10h e sentir-se em família e comer e rir. Kempei a isso, companheiro. Mas a vida fácil vai acabar daqui a 4 dias. Vai trabalhar em Chengdu, já tem 33 anos e quer a vida que sonhou, e para isso, está disposto a abandonar a vida que gosta.
Kempei, se não há outro remédio...

...

No jardim da cidade estudamos a nossa primeira lição em mandarim: contar até 10. Sozinhos tentamos memorizar as palavras, os símbolos e os gestos que os nossos companheiros de sorte e refeições nos tinham ensinado na véspera.
Estamos rodeados de mesas de seniores a jogar ao xadrez chinês. O meu filho, memorizou tudo muito antes do resto da família, afasta-se e aproxima-se do jogo da mesa do canto. Eu digo que também memorizei e antes que alguém queira verificar, vou para o pé de um grupo de reformados sem reforma, que estão com a rádio ligada. Ou são todos surdos ou muito tolerantes. Vinte rádios com volume no máximo, todos sintonizadas em estações diferentes, fazem-me questionar a liberdade de escolha como valor absoluto e universal.
Olham para mim enquanto passam, uns dançam, outros não. Todos me sorriem. Deve ser um bom lugar para passar a terceira idade. Faço contas mentais para calcular quantos anos ainda me faltam. Não tantos assim.

Wang explica-nos mais tarde que quando se casar com o trabalho, com a casa e com a mulher, vai dizer aos pais para irem morar com ele. Ele é o irmão mais velho e é isso que tem que fazer. Os pais trataram bem dele. Agora ele vai tratar bem dos pais. Parece justo. E além disso, não quer ser apontado pelos vizinhos como um mau filho. My god ! repete. Calo frases feitas sobre dar-se demasiada importância ao julgamento dos outros. My god ! repetiria Wang.

Os senhores do jardim parecem ter filhos que foram muito bem tratados quando eram pequenos.

...

A beleza é muito importante para os nossos anfitriões. Os meus filhos são muito elogiados pela sua aparência. Um homem que não fala inglês mostra uma frase no écran do seu smartphone ao Francês a elogiar-lhe a barba. Ninguém diz nada sobre a minha aparência, nem mesmo no dia em que fiz esforços com o meu cabelo. A China é um pais muito duro, os meus amigos tinham razão.

Este texto poderia ser muito mais rico e profundo se eu tivesse percebido mais do que um terço do que me diziam e do que se passava à minha volta. Quanto tempo é preciso para se perceber o mínimo de uma conversa em mandarim ? Sonho com grupos de conversa na Chinatown em Paris e logo percebo como sou alguém de muito razoável. o que me apetecia era viver na China. Largar para sempre o que deixei temporariamente. Ser chinesa em Dali, acordar todos os dias depois das 10h, a seguir a uma longa conversa na noite anterior. Mas penso em compromissos em Paris. Noutras cidades chinesas, contam-me a vida começa muito cedo. Com o sol, as pessoas acordam, começam a correr de um lado para o outro. Oh, my god ! exclama Wang, metendo as mãos à cabeça.
Oh, my god ! diz mesmo a minha boca descrente.

...

Percebemos mais tarde, que passamos as noites com a juventude dourada chinesa. A que estudou, que viajou, a que compra Louis Vuitton nos Champs Elysées, a que fala fluentemente inglês. Daqui a dez anos muitos chineses vão ser ricos, discute-se novamente a beber a cerveja que não embebeda. A China vai mudar. Ainda mais. O mundo vai ser outro.
Joy tem 25 anos e viveu em Beijing durante quatro. Diz que a mudança é demasiado rápida. Quando saiu não reconheceu a cidade em que tinha chegado. Uma outra cidade. A China vai ser como Beijing.
Mas todos estão de acordo com algumas reservas : nem todos vão conhecer esta abundância. Há sempre quem fique de lado. Os agricultores das montanhas ganham o equivalente a 700 euros por ano. Uma mala Louis Vuitton sem as taxas de importação.
Joy confessa à segunda cerveja que nem tudo é alegria, na sua vida de mulher emancipada da nova China. Os pais pressionam-na. Tem que se casar. 25 anos é tarde para uma mulher chinesa. E ela não encontra marido. Nem quer saber. Quer viajar, trabalhar como eu também queria aos 25 anos.
Apesar do peso das tradições e da família, Joy é um nome apropriado, foi ela quem o escolheu quando aprendeu inglês na escola secundaria. Joy podia ser uma de nós, a crescer num mundo diferente. Num mundo que pensa que a vida é demasiado pequena para que caiba tudo. Onde se tem que fazer escolhas, onde não se pode escolher tudo. Obedecer a regras, pagar e gastar-se.
E gastar-se.

Wang Hui comenta mais tarde na noite, quando ficamos sozinhos, que muito provavelmente a Joy nunca ira encontrar um marido chinês. Uma boa mulher não é assim. Wang prefere uma mulher que cuide dele, gentil, que cuide dos seus pais. Sinto uma estranha simpatia por Wang, na verdade, nunca tinha conhecido um misógino tão simpatico. Fico satisfeita por não morar perto dele, de certeza que se continuássemos a falar, o tom iria vertiginosamente azedar. Esta é uma das muitas razões que me levam a gostar de viajar sem cessar. Acumulo amigos, mesmo que uma parte deles sejam potenciais inimigos. O mundo é mais fácil de engolir quando não se fica muito tempo focado em questões essenciais e outros pormenores.

...

Decidimos incluir Chengdu no nosso itinerário, quando sairmos da província de Yunnan. Coincidência ou não todas as pessoas de que gostamos são de Chengdu. Avisam-nos que existe apenas algo a que temos de fazer atenção : a comida é muito picante em Chengdu. Como se a agressividade das especiarias, determinasse a doçura no carácter.
Talvez as educadoras que colocam piri piri na boca dos mal comportados, afinal tenham um fundo de verdade psicológica, mesmo talvez filosófica. Decido mudar o meu modo de vida, vou aderir ao chocolate com pimentos padron assim que chegar a casa. E depois dizer asneiras de propósito.

...

Pode-se, com muita razão, especular a dada altura, sobre quantas mais linhas escritas em Dali, vai ser preciso ler, para se ler algo sobre Dali.
Acontece que nem sempre a viagem, e o que nos fica dela, é o que se espera. Isto todos pensamos que sabemos, mas uma vez vivido parece que é diferente. Como se fosse de admirar a confirmação de uma teoria que apenas tivesse sido escrita no quadro. Einstein deve saber do que estou a falar, Coitado. Coitado dele e dos habitantes de Hiroshima.
Não sei se sei muita coisa sobre Dali, para ser sincera. Pode-se saber muito de um lugar onde se passou. Posso-vos apenas contar-me dos meus dias em Dali. Do que ali ouvi e senti. Da cerveja que bebi.

Posso andar um pouco para trás, se isso ajudar em alguma coisa. Depois de sairmos de Kumming, onde apenas conhecemos o aeroporto onde não se fala inglês, chegamos a Dali. Ou a uma Dali. Acrescentaria, a "verdadeira" de hoje, se verdade não fosse um conceito tão abstracto. A estação de autocarros chegou ao terminus de uma cidade sem fim, que parecia um qualquer subúrbio de Lisboa, mas maior. Os mesmos prédios, as mesmas ruas por embelezar, as mesmas árvores por plantar. Agora, de repente, não me lembro se havia marquises. Talvez seja, esta a única forma de distinguir a arquitectura e urbanismo de uma e outra.
Desta Dali, apanhamos um mini autocarro, que se encheu de trabalhadores que queriam chegar a casa no final de um dia não muito entusiasmante. Também aqui as diferenças entre estes e os que usam a Transtejo, pertencem a quem tem gosto por detalhes. Meia hora depois chegávamos a Dali, a turística, a histórica, e para muitos, talvez até para mim, a "verdadeira".
Rodeada de muralhas, casas antigas restauradas, algumas com certeza feitas de raiz para compor melhor o vestígio do passado - afinal,  para além dos fundamentalistas islâmicos, quem é que ainda se interessa por ruínas nos dias que correm ?

Mas não é sobre Dali que vou falar, apesar de Dali estar por todo o lado. Quero contar a falar sobre o que se passa na mesa das refeições da casa onde nos deixaram dormir, e fingir viver, durante umas noites. Dito assim, parece prepotente, estas linhas são minhas, faço com elas o que quiser. Mas, acreditem, é pelo melhor, que interesse teria ocupar este espaço a falar do que não sei ?

As refeições continuaram. Nos restaurantes, a pedir pratos que não sabíamos ao que iriam parecer ou saber. Na casa, a elogiar a comida, mas a apreciar mais a companhia. Não quero desmerecer os resultados culinários daquela que era sempre a que ia para a cozinha. Não quero vos deixar a ideia que não sou boa boca. Mas quando a companhia é assim, faz-se prioridades e estabelece-se importâncias.

Continuarei a falar das refeições em Dali, pois que até agora ninguém me impediu de tal. O dono da casa que pensamos ser um hotel é um soldado reformado. Não fala inglês e mostra com grandes gestos teatrais o que era a sua vida quando trabalhava. Percebemos que envolvia metralhadoras. Tentamos não mostrar que ficamos chocados. O nosso bom anfitrião. O que nos deixa beber cervejas o que sorriu quando lhe explicam o que dizemos.
A China, apesar de não gostar de guerra, tem que ser agressiva, explica-nos Wang. Ele sabe o que o mundo diz do seu pais. Quando atacamos é porque não temos escolha. Existe sempre escolha, mas desta vez não replico. O jantar esta maravilhoso e tenho receio de ser mal compreendida ou de haver erros na tradução.
Falamos do mundo em geral e do mundo chinês em particular. Wang repete uma frase-chave durante o resto da noite amo esta terra, mas não gosto deste pais. Precisa-se de dinheiro para tudo, precisa de dinheiro para viver, quando tudo o que quer é olhar para as estrelas, rir com os amigos, beber cerveja. Todos querem. Poucos o fazem. A razão permanece um mistério. Sabemos como ser feliz, mas depois perdemo-nos no caminho, e temos mesmo que comprar um carro e uma casa e mais uns sapatos. Somos mentes simples e distraídas, mesmo as que julgamos mais complexas. Todos partilhados imagens de sabedoria, mas meia hora depois estamos a comprar um novo sofá porque o outro estava velho. E a gastar o tempo que trabalhamos para ganhar esse dinheiro em algo vão. Sinto-me inteligente neste mês em que gasto apenas em experiências que me fazem feliz. Mas não tenho ilusões acerca da minha vida sedentária. Serei como os outros. Com sorte, talvez apenas um pouco menos.

Wang abriu um negocio com um amigo e o dinheiro do pai. Compa blueberries aos agricultores chineses e vende-os a preço alto a Singapura e a Hong Kong. Mas este ano correu-lhe mal. Culpa a corrupção. Informa-me que o presidente eliminou todos os corruptos, faz um gesto brusco perto do seu pescoço e agora acredita que tudo vai correr melhor. Gostava de ter acesso à campanha de propaganda que o convenceu disto. Wang é um crente, mas os seus olhos não estão fechados. Preferia que houvessem dois grandes partidos, uma boa oposição, seria mais equilibrado, acredita, mais justo e eficaz. Fico admirada com a sua franqueza, com a sua critica aberta ao governo. Assim como fiquei admirada por ver tantas famílias com vários filhos. A politica do filho único não é assim tão massiva como julgava. Não deixa de ser surpreendente que uma pessoa como eu, com acesso a toda a informação que esta na internet, a jornais e a revistas, tenha uma imagem tão errada do mundo que a rodeia. Questiono sobre o que andam as fazer os orgãos de comunicação social. Questiono-me sobre como escolho as minhas fontes de informação. Com a actual questão dos refugiados, por exemplo, não tenho mãos para contar o numero de debates a que assisti, onde o que mais salta aos olhos é a ignorância profunda do que se passa no mundo. Vivemos numa espécie de idade medieval, onde a informação não nos chega, mas estamos convencidos que percebemos como o mundo funciona. Como provavelmente os cavaleiros do século X.
I love this land, I hate this country. E sorri.
O chefe da sinal e bebemos todos ao mesmo tempo. Kempei. All in.

...

Rei da Luz explica-nos que a casa onde dormimos tem muito sucesso entre os turistas e viajantes chineses, porque é muito antiga, mais de dois séculos e é feita de madeira. Os chineses gostam muito de madeira, é um elemento natural. Torço-me na cadeira. Imagens das lojas dos chineses nos subúrbios de Lisboa invadem-me a cabeça, centenas e centenas de brinquedos e todo o tipo de objectos em metal correm de um lado para o outro. A etiqueta "made in China" por todo o lado. O que os europeus gostam. Não deixa de ser um revés da medalha divertido, esta coisa da ignorância mutua. Nem sequer entro em detalhes, o surreal parece-me demasiado enorme. Culpo a cerveja, sorrio e concordo que os chineses têm razão, a madeira é realmente um material nobre. E não falo sequer sobre o que vi no Laos. A sua desflorestação das florestas primarias por companhias chinesas, para satisfazer o seu bom gosto. Guardo todas estas informações para mim, agora para vocês.
Como é absurdo o mundo em que nos movimentamos. O jantar é novamente delicioso. O meu anfitrião explica-me que a galinha é do campo, da boa, nada como a galinha do KFC que se vende agora na praça principal. Parece convencido que os chineses têm bom gosto, mas lembro-lhe que o KFC também tem muito sucesso na China... Lembrando-me que a mesa onde tenho passado os meus dias não é a China e que provavelmente não sabe muito mais da China do que um europeu do outro lado da internet. Dificilmente sabemos e conhecemos o pais onde vivemos. Acreditamos no que queremos acreditar e procuramos provas junto a fonte e pessoas que nos vão confirmar o que queremos. Não sei como furar esta barreira do preconceito, um degrau mais que seja.
People are strange, acrescenta Wang e encolhe os braços. O anfitrião mostra-nos o copo para nos lembrar que é hora de beber. To strange people !
Apesar de haver nuvens no céu há estrelas que teimam em brilhar : à deles ! à nossa !
E com este remate metereologico me vou. Vamos todos, se quisermos, que a viagem, essa, continua.

27.8.15

Quando dei por mim, a viagem acabou

Comecei a fazer o luto desta condição de vida, um mês antes do fim. Num acto de grande disparate, tomei as dores de uma viajante de longa duração, que conheci numa praia, e que estava prestes a regressar a casa. Aproximei-me tanto, que me transformei. E sofri com ela o final do que se quer permanente. Disse-lhe adeus quando subiu ao barco e recomendei-lhe que comesse muitos gelados, uma das compensações a que iria recorrer, tinha-me confessado.
Ao jantar, o meu filho disse-me que queria muito comer queijo quando voltasse a casa, a minha filha queria beber agua da torneira, o Francês suspirou por um copo de tinto e eu suspirei por Africa, completamente fora de contexto.
Depois o tempo passou, e tivémos um ultimo mês de viagem muito grande e muito cheio, esqueci-me de casa e das dores da chegada. O tempo, esse, não se esqueceu de nada, e agora estou aqui. Chove, ainda por cima, os meus filhos vieram com duas baguettes e meia saidas do forno. Enchemos tudo com manteiga da Bretanha, que se derreteu e as baguettes estalaram quando as mordemos. Foi bom.
E eu agora escrevo.
Ontem, quando fomos à cave buscar os cartões do que resta da nossa vida anterior, encontrei um livro solto. Na contracapa amarela estava escrita uma frase tão a proposito com o que estou a viver que quase tenho pudor daqui a transcrever. Mentira, não tenho : "é preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta ja."
Parece coisa de filme, esta coincidência, este ano que vivi.

Na rua, perguntam-me como é que foi. Como é que se conta um ano inteiro cheio de tudo ?
Voltei para casa, sem ter percebido onde é que a minha casa era.
E agora estou aqui. Que recomece o jogo.

29.7.15

De um lugar onde não nascem as coisas

A praia é, e deve para sempre ficar, um lugar estéril. Que a sociedade moderna se dirija ao litoral para passar férias, é um sinal evidente que é a busca da não produtividade que o ser humana visa, quando lhe dão liberdade. Vivemos numa sociedade anti natura. E a perpectuamos.
Posto isto, que não se espere grande coisa das linhas que seguem. Fica o aviso. 

Estava ainda às voltas em planos e vontades, na minha sala com vista para o bosque de Saint Cloud, nos suburbios de Paris - perto de onde nasceram os meus filhos e onde, com alguma histeria e falta de controlo, me senti morrer – quando as ilhas Perhentians na Malasia se começaram a impor. Descrições de ovos de tartaruga a estalar e pouca precisão sobre datas e factos, paginas de literatura sem forma, mas com conteudo suficiente para me levarem até aqui, hoje : um quarto sem sofa, mas com ar condicionado, à frente de um mar transparente. O ar condicionado à hora da sesta. Mais facil falar de falta de conforto do que a viver, como todos podemos calcular, mesmo à frente de um écran de computador.

Na ilha grande das Perhentians acordamos mais cedo do que queriamos. Por volta das 6 horas, macacos com cara humana subem às arvores que dão para o telhado do nosso bungallow e deixam cair os caroços dos frutos que calham comer. Um estardalhaço. Ao principio, pensamos irritados que é alguém sem sentido de oportunidade que começa a fazer obras. Não queremos saber de renovação e modernidade assim que acordamos. Ninguém quer. Primeiro o café. Depois percebemos que não é a culpa de alguém da nossa espécie e acordavamos bem dispostos. Menos do que às cinco, quando a mesquita da ilha pequena lembra a quem faz o jejum do ramadão que o sol esta quase a aparecer. Como se houvesse uma ordem para a tolerância do despertar matinal : o instinto do macaco, a religião dos outros, a ordem e o progresso. Pouco tem a ganhar o hino do Brasil, antes do suco de mamão do pequeno almoço.

Nadamos até à plataforma de onde se podem ver as tartarugas e esperamos ver uma a vir à tona de agua para respirar. Invariavelmente é a minha filha que as vê primeiro. A minha filha que se distrai tantas vezes quando lhe falo de gramatica. Mergulhamos e ficamos à superficie a ver as tartarugas pastar no fundo do mar, até que um barco cheio de mergulhadores nos vê e se aproxima. Câmaras impermeaveis, excitação, lembranças, indicações de zoom, posterioridade. Fugimos, com maior sucesso que a tartaruga.
Não sou a pessoa mais insensivel à face da terra, pelo que não é com surpresa que me sinto emocionar para além do razoavel, quando estou debaixo de agua a olhar para uma tartaruga e vejo um dos meus filhos passar a nadar a fazer-me sinais para me indicar que viu outra tartaruga mais à frente. Todas as mães deviam ter uma parte do mar para elas, para os seus filhos e para as tartarugas. Maldigo os grupos de mergulhadores, mais do que os grupos de estagiarios que podem irromper numa sala de partos. Existem momentos sagrados, mais inesperados do que outros.

Pelas ondas da internet um amigo que anda a viajar mais à frente, diz-nos que devemos partir. Pulau Kapas é melhor. Seguro. O paraiso fica sempre mais além, ja o sabemos. Mas a curiosidade não nos deixa descansar. Não somos cool. Speedboat. Autocarro. Apelo à oração de uma mesquita. Speedboat. Pulau Kapas. Selva. Mar. Coral. Peixes. Aqui. Agora.
Os meus filhos fazem amigos rapidamente no primeiro dia de praia e eu tenho que admitir que também. Todos precisamos de outros. Conhecemos uma familia que acaba esta semana a sua viagem de um ano, a mãe esta particularmente abatida. Sinto uma empatia maior do que é confessavel. Não se pode parar o tempo, não se pode parar o tempo. Quero saber como é, mais do que quis quando encontramos, em Kuala Lumpur, uma outra familia que estava a começar o seu ano sabatico. Não sei se continuarei a seguir a sua aventura, quando a minha acabar. Não sei porque me lê, quem ficou em casa. Não quero ler. Nem sequer sei se quero escrever. A vida não esta aqui. Não esta, não esta.
Outra familia que encontramos no mar, prepara-se para mudar de vida, depois de viajar decidiram ir viver para a Nova Zelândia. Não são motivos financeiros que os chamam é o desconhecido é outra cultura. Sem exageros é outra vida. E outras vidas, eu quero conhecer. Este assunto sinto-o como um futuro. Deste assunto, quero aproximar-me. Falamos até tarde na noite em portuñol. O assunto que ainda não se viveu, não se esgota nunca.

...

Debaixo de arvores, julgando-nos longe dos lagartos, falamos do que vamos fazer depois, todos queremos mais, todos sentimos as vidas a correr, todos sabemos o que temos a fazer. Alguma coisa. Nova Zelândia para uns. Novos anos sabaticos para outros. Tudo para mim.
Alguém grita na agua, um cardume de peixes napoleão passa do outro lado da barreira de corais. Começamos a correr em direcção ao mar e nadamos o mais depressa que conseguimos. O espectaculo é magnifico. Na verdade, às vezes, o tempo para. Olho para os peixes e olho para estes homens e mulheres e sinto uma energia vital. Claro que não sei explicar e claro que pareço ridicula a tentar fazê-lo. A energia vital de quem tem urgência. De quem sofre. De quem vive. De quem sabe que não pode parar o tempo como equando gostavamos de escolher. De quem vai tentar mesmo assim.

Entretanto, viemos embora, alguém nos disse que Kapas não era nada, comparado com as ilhas Gilli na Indonésia. Entramos ontem no ultimo pais do nosso ano. Aterramos em Lombock, negociamos um preço para nos levarem directamente ao porto. Entramos num barco de transporte publico demasiado cheio, tentamos não partir os ovos, não acordar quem aproveita para descansar, não nos preocuparmos com a agua que entra no barco. Os meus filhos refazem sistematicamente o calculo para saber em que direcção devem nadar, no caso de naufragio. Lombock ou Gilli. Chegamos de tarde. A maré esta vazia, não se pode nadar nos corais, temos que esperar pelo dia a seguir. Promessas de fundos marinhos tiram-nos a vontade de comer peixe. Os meus filhos ficam a olhar as estrelas do mar e uma menina fala-lhes de um templo debaixo de agua que existe em Bali. Não sabemos se depois, devemos ir para oeste em direcção, a Bali de que todos nos falam bem ou mal, em diecção aos vulcões em Java ou se devemos ir para Flores e depois continuar mais a Este, para que a Calita nos leve a beber cerveja em Dili.
Amanhã vai haver alguma ondulação por causa da lua cheia. Gostava de saber que astro se vai ocupar de mim no ano que vem. Hoje, por exemplo, sinto-me cansada, mas isso não é importante porque não vai mudar nada. O Francês também acredita que alguma coisa ainda é possivel e, por ora, basta-me. Continuamos, havemos de parar o tempo mais à frente.

11.7.15

Em Malacca com Elisabeth de York

Quis vir a Malacca atrás das historias que aprendi na diagonal na escola. Hoje em dia, diga-se de passagem, parece-me que tudo o que aprendi na escola foi na diagonal. Não é necessariamente mau, aprender-se na diagonal, eu nunca direi o contrario. Logo eu que, para grande desespero de quem partilha as noites comigo, adopto a diagonal como a minha posição preferida para dormir. Não o faço por mal. Evidentemente. Nem quem quer incutir algo nas cabeças das gerações vindadoras. O problema é de quem pensa na escola como um fim, quando não é que um principio. Lembro-me dos professores que começavam as aulas a escrever o sumario no quadro preto e depois começavam a dar a lição. Isto pode induzir a erro. Toda a escola é um sumario. Uma proposição. Os outros não percebem isto. E depois, no final, perguntam que notas tivemos, em vez de quererem saber onde vamos com o que começamos a aprender. Olha, eu, por exemplo, calhou-me ir a Malacca.
Chegamos cedo à fonte da rainha Victoria, rodeada de prédios vermelhos, erigidos pelos holandeses quando aqui mandavam. Isso e por rickshaws decorados com a Hello Kitty e as bonecas do Frozen. Não percebo nada de marketing, não sei para que tirei um curso. Se alguém me dissesse que ia decorar a sua bicicleta com peluches, luzes led e apetrecha-la com um sound system para chamar quem por aqui passa, diz-lhe-ia para se dedicar antes aos pasteis. De nata ou de bacalhau, à escolha. Mas, pelos vistos, aqui ninguém quer saber de pasteis, já os richshaws de natal com o espírito das feiras de Corroios encarnados, fazem um daqueles sucessos.
Mas, como ia dizendo, chegamos cedo a Malacca, o autocarro de Kuala Lumpur demorou pouco mais de uma hora para nos trazer aqui. Tenho que vos falar do que nos aconteceu em Kuala Lumpur. E no Japão. E na China. Mas sou agora cheguei a uma praia, só agora me estou novamente a aborrecer. Já vos falarei da praia : é paradisíaca. Temo que os meus filhos nunca mais me deixem sair daqui.
Fui a primeira a chegar a Malacca. Depois do Afonso de Albuquerque e todos os outros, claro. Uma senhora com uma idade difícil de adivinhar vem me propor um quarto simples. Fala um inglês perfeito, daqueles ingleses que podem estar a falar do peixe que compraram no mercado, mas vão sempre parecer mais inteligentes. O inglês em questão, vem de York, soube-o mais tarde. A senhora vem de muitos sítios. Esta é a historia da nossa vinda a Malacca e do meu fascínio apenas com um precedente por Elisabeth de York. Depois tenho que vos contar acerca do precedente.

Elisabeth leva-nos pelas ruas da little India, explicando os edifícios, os restaurantes, as historias e os gatos. Eu opto por não olhar para o Francês, no caminho. Tínhamos decidido não irmos atrás do primeiro que nos aborda na rua, era para sermos racionais, recolher informações, analisar, estabelecer hipóteses. Mas eu, entretanto, decidir não decidir e seguir Elisabeth. Não vou entrar em exageros, mas se ela me pedisse, ia até ao fim do mundo. Na Argentina. Não é um mau sitio para se ir. Sei-o agora.
Elisabeth leva-nos para uma casa visivelmente a precisar de obras. Parece que o dono a telefonou, estava ela na sua vida em Singapura, para lhe pedir ajuda. Trata-se de um velho amigo, que por causa do álcool e das noitadas, viu-se acamado, sem forças nem saúde para gerir a guesthouse. Entretanto, recusa-se a ir ao hospital, onde não poderia beber álcool, nem fumar cigarros. Quando explico isto às crianças, respondem-me chocadas que isso não faz sentido. Ainda não têm a idade suficiente para perceber que nem sempre a saúde é o mais importante, que existem outros princípios e prazeres, mas não sou eu que lhes vou explicar. Continuem a comer cereais sem açúcar, meus queridos e o vinho tem um cheiro horrível sim senhores.
A casa já deve ter sido os seus tempos áureos, vejo fotos com pouca cor de festas hippies pregadas nas paredes, descalço-me e subo as escadas atrás de Elisabeth. O Francês senta-se no hall, fazemos como quiseres. Digo que sim, com um sorriso a um quarto com a pintura a cair, uma mostiqueira cheia de buracos, uma só cama que range e uma promessa de colchões para os miúdos. O Francês vai-me matar. Estou disposta a pagar com a vida as historias que vou ouvir, em inglês de York.
Quando Elisabeth vai dar de comer aos gatos do bairro, vamos à procura dos vestígios portugueses no centro da cidade. Faço ares de conhecedora e debito tudo o que me lembro acerca do estreito de Malacca. Muito pouco, pouco mais do que o sumario, temo.
Subimos ao Monte de São Paulo para ver a vista, o sol a pôr-se, o estreito, a nau portuguesa, a fortaleza, ou o que resta dela e todas as esperanças que aqui nasceram e morreram. Interesso-me, por ora, pelos nascimentos de outrora. Os arranha céus e os centros comerciais não me interessam, não são o meu futuro.
No dia a seguir, corremos para dentro da nau-museu « Flor de la mar ». Teria tendência para dizer Flor do Mar, mas o português é uma língua que muda tanto que aceito tudo. O que é que eu posso saber ? No final, os meus filhos sabem mais do que eu aprendi na escola. E isto não sou eu a fazer-me de mãe alternativa que tira os filhos da escola, para lhes ensinar melhor ou diferente. Isto é a realidade. Pronto, e também sou eu a fazer um bocado de mãe alternativa. Pronto.
No barco havia muita informação, mas desconfio de alguma desinformação também. A bandeira que mostram dos portugueses, é a actual e não a que representava Portugal em 1511 e mostram armas anacrónicas. Falo aos meus filhos, da relatividade da Historia, da teria da conspiração e da importância do orgulho da nação para alguns governantes. Que é sempre bom ouvir-se varias versões, a versão malaia que conta que os portugueses eram uns brutos sem educação nem senso de diplimacia, a versão portuguesa de fama e gloria do período dos descobrimentos. Ficamos também a saber que os portugueses tinham canhões muito potentes e destruiram o palacio do Sultão. Do lado português dizem-nos que o sultão era nomada e vivia em tendas, nenhum palacio foi destruido, a apropriação de Malacca foi feita pacificamente. A versão malaia, a versão portuguesa, escolhemos não escolher e em vez acumulamos, não temos nada a dizer ou a argumentar, vivemos bem com a pluralidade e o mistério. Que outro remédio se pode ter quando se viaja para aprender ?
Mais tarde, fomos ao que resta da comunidade portuguesa, a Elisabeth disse-nos para irmos ainda nem sequer sabia que eu era portuguesa. Não sendo ainda o fim do mundo, até onde eu iria por ela, tive a sensação de estar a visitar o fim de um certo mundo português. Isto contaram-nos à frente do museu da herança portuguesa. Mas isso foi depois. Antes comemos.
Em Malacca quase não encontramos vestígios dos portugueses : a porta de Santiago, restos da fortaleza « A Famosa », um rancho folclórico que não vimos e pouco mais. Existe uma little India e uma little China, que trouxeram os ingleses, mas não existe um little Portugal, como em nenhuma cidade onde vivem portugueses, tenho a impressão, mas ainda tnho muito para ver.
Tivemos que apanhar um taxi para o the portuguese settlement, please. Estava calor, as casas não pareciam particularmente históricas, não havia uma igreja, que o sultão não deixa construir, não havia vivalma. Fomos comer ao restaurante Lisbon, ao menos não sairíamos dali de barriga vazia.
No restaurante escolhemos um peixe e uns camarões num menu inglês. Perguntei se não tinha em português, não recebi em troca o nome do peixe em inglês, mas fui apresentada a um grupo ao lado. Disse que vinha de Lisboa para simplificar. Disseram que vinham do Porto, de seguida fizeram uma ou duas alusões sobre a superioridade do Norte, como muitas vezes fazem, com mais ou nenhuma piada, as pessoas do Norte de um pequeno pais do Sul. Não me interessam conversas regionais que ja ouvi vezes demais : eu quero que me falem do mundo, por favor.
E falaram. E cantaram. Não em português do acordo ortográfico em voga, mas em português do século XVI. No museu do povo em Malacca, chamam-lhe « cristão ». 
Félix, um senhor de aspecto malaio com uma t-shirt d um encontro em Timor já esteve em Portugal, conheceu a Mariza e partiu em tournée. Cantou tianica do Loulé e o malhão, malhão, continuei a comer. O molho estava excelente, o peixe fresco. Nunca soube como se chamava. Mas depois parei de comer, nem só do estômago vive o homem. Félix cantou uma musica sobre os marinheiros, num português arcaico. Se era a Malacca de 1511 que me tinha chamado até aqui, tinha-a encontrado.
Na mistura de sangue, no que fica quando tudo acaba. 
Os portugueses de Kuala Lumpur, uns de Moçambique, outros do Porto, esta portuguesa que ainda não sabe de que terra é e uns três franceses, entraram no museu, um acumulado de um doador vendedor de antiguidades. O responsável veio com a chave e abriu de propósito para a estranha comitiva e mostrou-nos as fotografias do inicio da aldeia, quando os ingleses os expulsaram do centro, no lugar da actual chinatown. Pediram uma terra ao bordo do mar e umas redes para pescar, contruiram casas de madeira e ficaram a misturar-se cada vez mais com a natureza malaia, o mar e as mulheres. Disseram que um português podia chegar a ter três mulheres malaias, muito peixe fácil de pescar e nenhuma razão para voltar para o Terreiro do Paço.
A aldeia esta condenada, mas ninguém parece agitar-se por causa disso, o dinheiro de Singapura tem grandes planos para aquele terreno, uma marina, um edifício de luxo, cada família vai receber uma bela soma e vai partir. Faltam apenas 10 anos para que a data definida pelos ingleses para cedência do terreno. Falta pouco mais de um mês para que tenhamos que voltar para casa. Também nos não vamos lutar.
Em aparência.

Quando chegamos de noite à Guest house, ou ao que resta dela, encontramos Elisabeth a jogar à Pacience. A sanguessuga que existe em mim acorda. Em troca de respostas sobre o nosso dia, puxo pelo fio do passado. Sete anos viveu na Índia, ensinou inglês na Indonésia e viajou, viajou, viajou. Elisabeth de York tem 81 anos e viu mundos que agora ja não existem. Começou a correr mundo com vinte numa viagem à terra santa, quando ensinava inglês a crianças da aristocracia espanhola. Depois a vida foi acontecendo e hoje tem historias para contar durante muitos Invernos ingleses. Volta a York no final do mês - ja avisou o amigo - para ver amigos e familiares, mas não vai ficar. Não tem razões para ficar. Uma vez na Índia uma senhora que sabia mais do que os comuns mortais, disse-lhe que tinha rodas em vez de pernas e que ia morrer a dormir, que não se preocupasse. A partir dai, Elisabeth continuou a viver como sempre quis, mas com um bom pijama. Perguntam-lhe muitas vezes se viaja sozinha, com aquela idade. Responde que não, viaja com a sua bagagem. Temos que ter cuidado com os outros, podem envelhecer-nos mesmo sem ser por mal and we don't want this, do we ? Espero que continue por muitos e bons anos a fazer o que muito bem lhe apetece, Elisabeth.
Que os nossos caminhos se voltem a cruzar, longe do que muitos insistem em chamar de casa.

No final do ultimo dia em Malacca, passeamos no centro da cidade. Numa mesma rua, a rua da harmonia, encontramos, um templo budista chinês - Sanduo, um templo hindu dedicado a Vinayagar, uma mesquita e alguns altares para os deuses de lojas ou casas. Estamos no meio do Ramadão e o sol parece que se apaga, neste fim de tarde. Contemplo Shiva e Ganesha enquanto ouço o apelo à oração em arabe, duas chinesas passam por mim a discutir com caixas de incenso nas mãos. Malacca pode não ser o centro mundo como o conhecemos, mas ainda se encontra no meio de um equilibrio fundamental. 

13.5.15

Banho Maria numa ilha tailandesa à frente do Cambodja

Por vezes, fico muito tempo sem escrever, ou porque está tudo a acontecer ao mesmo tempo ou porque não quero escrever o que estou a viver, sem antes escrever o que vivi. Depois perdem-se os detalhes importantes e a reanimação nem sempre é possível. A vida, essa, continua a dar-nos tudo o que acha que devemos ter. O bom. O mau. Nem tinha nada que ser diferente. Era o que mais faltava. Continua célere e tenho provas : neste que é um dos anos mais vividos da minha vida, tenho vindo a envelhecer mais do que julgo ser habitual. Talvez existam rugas especiais para os anos especiais. A ver se as guardo. Os cabelos brancos, esses, são iguais aos outros. Também é verdade que viver assim, cansa.
Não me estou a queixar.

Tenho raros dias em que paro. Estou do outro lado do mundo e fico um dia inteiro no quarto com o ar condicionado ligado. Aproveitamos para avançar no programa escolar, lemos, vemos uns documentários, os miúdos brincam com legos, o brinquedo mais improvável para se levar numa viagem assim.
Lá fora, a vida mostra-se ainda com mais força do que é costume, desse lado do mundo. O barulho das buzinas entra pelas janelas fechadas. O motor das motas. Os pregões de quem vende mangas, durião (será assim que se escreve em português, o nome deste fruto que cheira tão mal e que é proibido em todos os autocarros e hotéis?) arroz, facas, cimento e, essencialmente, coisas que não vamos saber, porque nestes dias não nos vamos levantar para descobrir.
A minha filha fica feliz, tem sempre projectos em mente e com esta vida movimentada nunca os pode realizar. Hoje empenha-se na elaboração de um jogo de vídeo sem vídeo. Desenha e corta personagens e acessórios. Ontem tinha que desenhar todos os robots que estavam a viver na sua cabeça, havia urgência porque eram cada vez mais. O meu filho progride mais do que é suposto e desenvolveu uma paixão obscura pela matemática. No outro dia, viajamos com um casal de professores primários que nos avisou que ele sabia mais do que devia saber na primeira classe.
Isto é tudo tão absurdo.

Não escrevi aqui sobre muitos dos sitios que visitamos e que nos marcaram. Tenho muitas historias dentro de mim. E, tal como a minha filha, sei que há urgência. Eu sei.

Escrevo agora de noite, com todos a dormir, menos os mosquitos. Malditos. Estamos a viver numa casa em cima de estacas, numa praia quase deserta da ilha-elefante da Tailândia. Estamos na época das chuvas, e ontem trovejou tanto, com tanta força, que comecei a pensar se estaríamos a salvo no nosso bungallow de madeira e rede. 

Ouço as ondas lá fora e penso na minha mãe. Esqueço-me sempre de lhe dizer qualquer coisa no dia da mãe. Posso alegar a confusão natural de quem vive em França, onde o dia da mãe é noutro dia. Mas a verdade é que não gosto deste dia. Nem de nenhum em especial, que existe para me lembrar de algo que não me esqueci. Penso hoje na minha mãe, porque um dos sons que ela mais gosta é do som das ondas a morrer na praia. Ela vai detestar a palavra morrer. A minha mãe é a rainha dos eufemismos. As ondas a sentirem-se um bocadinho mal na praia. As ondas a virem beijar a areia salgada. As ondas a acariciarem a terra. Sei que ia gostar desta temperatura da água. Demasiado quente para mim. Filha ingrata do continente africano. Lembro-me de me ter contado da primeira vez que foi à praia em Portugal, numa praia a apinhar na linha. De ter corrido para o mar e de ter mergulhado, com confiança, num mar tão gelado como ela nunca tinha imaginado. A minha mãe merece este mar morno. 
Mas sou eu que estou aqui. A fazer tempo para ir para outro lado.

...

O Francês não é o homem que eu pensava. Podem dizer que são detalhes. Mas ele não é o senhor perfeito que eu pensava que era. Nem tão racional. Uns vizinhos nossos fizeram uma volta ao mundo antes de se casarem, para terem certezas. As certezas não existem, sabemo-lo bem. Mas não deixa de ser uma ideia séria. Hoje sei que podemos viver uma vida inteira com um homem e não saber quem ele é. Podemos viver a vida inteira e não saber quem somos. Viajar não é a solução, nem foi à procura de sentidos para a vida que decidi viver esta experiência. Mas hoje julgo conhecer-me um bocadinho melhor. Os defeitos, os defeitos. E o "meu" Francês. Ninguém é de ninguém, eu sei, eu sei.
Na outra noite acordou-me. Tínhamos que ir à China. Comer como os chineses. Ir à casa de baho como os chineses. Falar alto como os chineses. Ser chineses. São tantos. Mais quatro, ninguém ia notar. Tinhamos que ir à China. Melhor, ir para a China. Não como tínhamos pensado, mas de outra forma, mais tempo, mais intenso, ele ia ensinar-nos o que sabe de mandarim, uma imersão total. E eu, que era assunto que podia esperar pelo pequeno almoço, que devia ter tido um sonho, que se acalmasse e me deixasse dormir. Este tipo de situação nunca aconteceu na vida que levamos quando não somos vagabundos. Supostamente eu é que acordo a meio da noite, eu é que sigo a lua e as hormonas, eu é que tenho vipes e cenas maradas. Eu é que tenho mesmo que fazer uma coisa. E ele o conselheiro, o ponderado, os quadros excel, os contratos com o banco.
A liberdade tem com cada coisa. 
Corremos o Cambodja de Este a Oeste, paramos em Phnom Phen e em Siem Reap, senão nunca nos iríamos perdoar. Prometemos voltar com mais calma, quando esta voltasse. Que agora não podia ser, havia uma loucura a satisfazer e, desta vez, a culpa não era minha. Abençoada culpa. Bendita graça. Naquela noite, o Francês teve um arrepio, esta nossa viagem vai acabar dentro de meses. Depois é o escritorio novamente, e o tempo a passar e a vidinha a comandar. Temos que mudar o que estamos a fazer. Rapido. Já. Ontem. O stress, o stress. Como se na outra vida, na vida trabalho-casa, nunca se podesse ter dado ao luxo de ser louco. A louca era eu. A livre. A que não tinha emprego, nem horario. A que podia sentir angustias e vipes e sonhos e simular depressões. Ele tinha que ser de outra forma. O senhor Atlas. 
A liberdade devia ser obrigatoria, é o que vos digo. 
Uma fronteira caótica depois. Torres Khmers, trocadas pelo retrato do rei da Tailândia e estávamos novamente de Banguecoque. Frente à Embaixada da China. Todos os documentos e explicações. O trajecto que vamos fazer. Nos, que nunca sabemos com mais de uma semana onde é que vamos. Com mais de um dia. Por vezes, com mais de uma hora. Tudo certinho, desta vez. A provincia de Yunan, os Himalaias, O Shangri-la. E depois Pequim e Xiam. Deviamos ter planeado de outra forma. um ano inteiro na China. O bilhete de avião comprado. E agora é esperar. A roleta do visa da China. Os outros turistas de longa duração tremem quando falamos do visa da China. Uma holandesa viu-se recusada, sem apelo, nem agravo, teve que pagar os custos de anulação do bilhete, dos hoteis, perder uma semana para mudar de planos.

Por isso, não sei em que pais vou viver para a semana que vem. A espera em Baguecoque tornou-se insuportável, ou um bocadinho chata, por muitos arroz colantes com manga que comesse. Viemos nadar em mar morno, numa ilha em baixa estação. Lutar com os elementos vai nos fazer mudar de ideias. Chuva torrencial. Trovoada. Mosquitos.Tubarões-baleias.
Estamos, portanto, oficialmente em banho Maria.  

26.4.15

Voltarei mais tarde para alinhavar

Estou na Conchichina.
Acho que isto quer dizer que estou muito longe de casa, mas não sei onde fica a minha casa. Neste momento, como em tantos outros, não sei. Perdi o fio, não tive cuidado, um dia tinha que acontecer. Amigos e familiares perguntam-me incessantemente se estou com saudades, se não sinto falta de nada. Tenho muita vergonha de lhes dizer a verdade. Não sinto. Saudades. De nada. Baralho a pontuação, coloco pontos finais, esqueço a gramática. Quero que não se perceba à primeira, ou que pelo menos, haja uma margem para duvidas. Sou uma ingrata. Eu sei. Depois de tudo...
Sinto-me em casa, quando não tenho casa, nem carro, nem frigorífico, nem armário, nem mesinha de cabeceira, nem papel higiénico. Se agora sair deste quarto de hotel e seguir a rua até ao fim, não sei onde vai dar. Não sei quem mora no quarto ao lado. Não sei sequer se mora ali alguém. Não tenho a língua certa. Pessoas dirigem-se a mim e falam-me, não percebo nada, não posso responder. E por mim tudo bem. Não tenho o cafézinho da manhã, nem nenhum livro para ler, o talho em frente é na rua e não usa frigirifico, vê-se moscas a rondar a carne. Em casa, repito. E é tão estranho. E é tão natural.

...

Temos viajado algumas vezes com outras famílias que também estão a fazer uma longa viagem. Dois anos, 9 meses, um ano, o tempo que o dinheiro esticar. Outros franceses, australianos, israelitas. Dizem-me que, às vezes, as crianças ficam nostálgicas. Perguntam se podem voltar para casa, querem os amigos, os avós, os primos e os vizinhos. Os meus filhos não.
O que é bom. O que é mau. O que é alguma coisa, com certeza.
Não temos raízes. Tanta emigração, tantas gerações a viver noutros países, noutros continentes, tanta andança deve ter danificado o nosso ADN. Estamos em casa, na Conchichina. Sentados, como se estivéssemos num sofá.
Venham-nos visitar. Ofereceremos café vietnamita com um fundo de leite condensado.

...

Uma das familias que conhecemos está agora no Japão, outra na Birmânia e duas no Nepal. Sigo-os no facebook. Por isso, passeio-me em Saigão e penso em Katmandu. Há três dias atrás, pensava que se calhar, deviamos mudar de planos novamente e voar para Katmandu. Toda a gente nos mandava para Katmandu. Que linda palavra : Kat man du. Duas amigas voaram para lá de férias e outra esteve lá há três semanas. Vai para o Nepal, dizem-me. Vamos, pensava.
Hoje penso e vivo um pouco em Katmandu, nas fotos que vejo no écran do computador que uma das famílias vai enviando : os prédios que vieram abaixo, as fotografias à frente da torre, onde estavam sorridentes, e agora, ao lado, a fotografia do que resta da torre, ninguém a querer posar ao pé dos destroços. As crianças a ver desenhos animados até às 2h da manhã, porque têm medo de dormir. E a outra família, com o mural do facebook cheio de angustia e pedidos de informação. Partiram numa caminhadas e ainda ninguém tem boas noticias. O "ainda" está ali por tem que estar.
Caminho em Saigão e penso em Katmandu. E só espero que esteja tudo bem.

...

Não tínhamos ainda ido a nenhum museu de guerra. Mas a guerra tinha vindo até à nossa viagem. As crateras de bombas nas ruínas de My Son, as historias sobre as estatísticas de guerra no Laos : 600 bombas por cada laociano, que nunca fui confirmar, seja qual for o verdadeiro numero, foi sempre um exagero. A brochuras dos museus e das prisões nos tours turísticos. E as propostas de diversão nos locais desmilitarizados para quem quer brincar às guerras. Os bares com snooker e decorados com helicópteros. O artesanato feito com restos de bombas.
Temos contornado a questão. Ou porque é demasiado explicita, ou porque não queremos passar uma imagem de guerra através de uma brincadeira. A guerra não é, nem nunca será uma brincadeira de adultos. Por muitas caras felizes de turistas a posarem à frente de bombas, que tenhamos visto ao longo destes meses.

Não fomos ao museu de guerra de Ha Noi, onde mostram os prisioneiros de guerra a ser tratados com se estivessem no Club Med. Nem deveremos ir aos museus no Cambodja, onde a realidade é mostrada sem o filtro que, quem nunca viveu em guerra, precisa para conseguir suportar a verdade insuportável. 
Estivemos ontem no museu de memorias da guerra, em Ho Chi Minh, que toda a gente no sul continua a chamar de Saigão. 
A guerra no Laos, no Cambodja e no Vietname, continua a chamar-se apenas de guerra do Vietname. 
E o fim da guerra, afinal, ainda não se encontra fechado. A guerra não acaba assim. Nos templos de Hoi An, pedia-se ajuda para tratar os que ainda sofrem com o agente laranja. No museu, homens e mulheres deformados ouviam musica e tentavam vender artesanato. 
A guerra não acaba assim, como nos tinham dito.


E os meus filhos já não querem brincar aos soldados. 


E eu quero ler outra vez "O amante" e ver por onde andava Marguerite Duras. E sentir novamente o que senti quando tinha dezoito anos, naquela sala do cinema Nimas.

16.4.15

O tempo que passa em Hué

Se o principio dos encontros é importante : tudo começou com uma brincadeira de crianças. Em vez de uma bola, uma pena com uma base pesada que se joga aos passes com o pé, se for preciso com a mão, numa rua de Hué, frente a uma estrada normal de uma cidade vietnamita. Muitas motos, bicicletas, rickshaws, alguns carros e outro veículos mais ou menos motorizados, mais ou menos equilibrados. O meu filho joga com um rapaz, ainda com o uniforme da escola, e uma menina vestida de vermelho, como todas as bandeiras hasteadas, uma estrela amarela no meio. A minha filha vigia o jogo de perto, com receio que a pena fuja para a estrada e o irmão corra atrás. Uma mota que passasse e o acidente dava-se. Dissemos-lhe que ele sabe disso, que viva a vida dela. Mas prefere seguir a premissa do nunca fiando. Este não é um texto sobre crianças.
Este é um texto que foi acontecendo, enquanto estávamos à espera que o jogo acabasse. Os homens, que estavam sentados nas cadeiras vermelhas, a beber uma cerveja e a controlar a obra, que ia avançando numa garagem, proposeram-nos cadeiras. Sentamo-nos e agradecemos a gentileza, respondendo a todas as questões que íamos percebendo, de onde éramos, há quanto tempo tínhamos chegado, a idade dos filhos... O jogo não acabava e a conversa ia continuando. Talvez este seja um texto sobre as conversas que continuam.
O tempo passa. Um dos homens levanta-se e faz-me sinal para o seguir - eu sigo homens desconhecidos em cidades bonitas do Vietname. Entre os edifícios em forma de garagens , que se vão transformando em lojas ou em restaurantes de bolos de agua de arroz, devia eu avançar numa ruela. No final da ruela um edifício antigo que julguei ser um templo. Chamo o resto da família e agradeço. Mas o edifício não era um templo, apesar de também ter um altar. Da porta saiu um senhor, o pai dos homens, que ainda sabia falar francês, do tempo da ocupação francesa. As palavras custavam-lhe a sair, já se tinha esquecido de muita coisa. Em oitenta e sete anos, acumulou muita informação e o cérebro há muito que andava a fazer uma selecção aleatória.
Diz-nos que somos bem-vindos em sua casa. A casa. A mais bonita de Hué, escondida por trás dos novos edifícios que os nove filhos transformam em ganha pão. Uma grande família, crianças por todo o lado. Crianças a dormir. Crianças a comer. Crianças a brincar. A casa no meio. Gostava que este texto fosse sobre a casa. Mas não sei se vou ser capaz. A casa tem mais de 150 anos, é feita de tek, num estilo radicional, e resistiu a tudo. E tudo, em Hué, não é pouco. A invasão francesa. O  colonialismo. 1946 e a guerra da Indochina. 1968. A invasão dos Viet Cong. A guerra do Vietname contra os "americanos". In order to save it, we had to destroy it. 
Sentam-nos no sofá, não nos deixam tirar os sapatos e servem-nos agua fresca. Quero perguntar-lhe sobre tudo o que se lembra, não sei se tão cedo vou querer sair desta casa. Deste sofá. Conta-nos o que nos quer contar sobre a sua vida, o diploma que podemos ver na parede, o pai, que construiu a casa. Vai buscar fotos do irmão mais novo, uma parte da família senta-se connosco e ouve mais uma vez uma historia conhecida. O irmão foi viver em Paris e nunca mais voltou, mostra-nos fotosdele em casa com os netos na rue de l'Ourcq. Correspondência trocada. Fotos num cemitério. A presença deste irmão, ainda jovem, numa fotografia a preto e branco pintada a cores, está por detrás de uma cortina, em cima de um altar. Incenso, comida, café, acreditam que ele goste, existem coisas que não mudam com o tempo. Nem com a morte.
Do lado de fora da casa, ouço o nome dos meus filhos com pronuncia vietnamita, risos e sons de passos que correm. Mas dentro da casa, temos dificuldades em perceber o que o senhor nos quer dizer, e nenhum dos filhos fala francês ou inglês. Quando pedimos-lhe para repetir, pergunta-nos se somos ingleses, talvez o nosso francês não seja suficientemente bom para entender o que nos quer dizer. Sorrimos, mas a verdade é que nos custa não perceber tudo. Como sobreviveram, como a casa sobreviveu, como é que se viu escondida dos passantes na rua, nunca saberemos.
Tiramos fotos juntos e prometemos-lhe enviar-lhe quando chegarmos a Paris. A senhora, que não fala francês e comunica por gestos, vai-se pentear. A única com preocupação em ficar bonita na fotografia. E fica. Tiro fotos das fotos do casal enquanto jovem. O tempo passa lentamente em Hué. Mas passa, mesmo assim. Não consigo ver a jovem mulher, no rosto da bela senhora. O senhor não se lembra de tudo. O tempo apagou feições e memorias.
Despedimo-nos com emoção, repetem-se votos de boas-vindas para o futuro. As crianças brincam ao pedra folha tesoura enquanto avançam para a estrada. O meu filho quer marcar um proximo encontro. Quer acrescentar certezas dentro do see you que trocamos.
Tento tirar uma ultima fotografia da casa, mas é  impossível, não consigo afastar-me o suficiente para que entre na câmara. O progresso e as vidas dos filhos não me deixam ver o passado. Amanhã vai ser mais fácil, vamos visitar a casa do imperador, vamos ter mais espaço. Mas foi aqui que nos emocionamos. Na casa escondida do pai do senhor Nguyen.

5.4.15

Era para ficar


Fomos mandados para Sapa.
Não sei o que aconteceu em Luang Prabang. Estava bem na minha pele, no Laos, das tais felicidades que não percebemos, até que nos acabam. Sabia-me muito mais do que apenas confortável. Laos pareceu-me um pais para mim, a dada altura: ninguém a querer vender-me nada. O luxo raro dos nossos dias. Entra-se numa loja no Laos, como se entra no pais, queremos ver, queremos comprar, pensamos, mas encontramos o laociano a viver a vida dele, a dormir a sesta, a beber cerveja, a passear. Temos que ter calma e andar pelo nosso pé, escolher o nosso  caminho. Temos que ir à nossa vida, como se a própria vida disso dependesse. E depende. Não comprar, não pedir, não nada.
Ir andando.
Estávamos em Luang Prabang, que muitos dizem ser a cidade asiática mais bonita da Ásia, que é como quem diz do mundo, quando me apeteceu muito sair dali. E voltar a um sitio onde fui feliz. Sempre um gosto de pornografia ao escrever a palavra "feliz". Qualquer dia é tabu, vai ser censurada nas redes sociais. Não se pode dizer que se foi, ou pior, que se é feliz, assim sem consequências. Preciso de aprender a me conter. Qualquer dia habilito-me.
Que se desenganem os que pensam que não estava a ser feliz em Luang Prabang. Estava. Estava a ser feliz, a subir a colina para ver o pôr do sol e não foi por não o ter visto, por causa do fumo das queimadas dos campos de arroz, que fiquei infeliz. Estava feliz por ver o Mékong e não foi por não ter mergulhado nele que fiquei infeliz. Estava feliz por ver a cerimonia de doação de comida aos monges, e não foi porque havia muitos turistas desrespeitosos, que fiquei infeliz. Estava feliz a comer no mercado e não foi porque não gostei do buffet que fiquei infeliz. Estava feliz na cascade de Kuang Si, e não foi porque nos fomos embora cedo demais, que fiquei infeliz. Estava feliz ao atravessar o Mékong para visitar a gruta de Pak On, e não foi porque não era como eu pensava, que fiquei infeliz. Estava feliz em Luang Prabang e não foi por causa de detalhes que não correram como eu queria, que fiquei infeliz. Fui andando, a viver a minha vida. Que ela disso depende.
Luang Prabang continua a ser a cidade asiática mais apetecível. Uma cidade que não apetece deixar. Sempre a sensação que nos faltou ver um canto a um templo, ou deixamos uma espetada por comer, uma ruela por espreitar, um sabaidee a desejar. Estou a falar assim de Luang Prabang, porque gostava que houvesse alguma justiça neste texto.

Mas depois houve aquela noite.
Não queria continuar a viagem em direcção do sul. Não sei porquê. Nem sempre sabemos de onde nos vêem os apetites ou as motivações, somos animais, não temos que saber tudo. O sul parecia-me estéril, seco e quente e, de repente, eu ansiava pelo contrario. Mudar de rumo. Alterar tudo. Colocar os pés no lugar das mãos. Devíamos partir para o sul, mas eu sonhava com o norte.
Amigos feitos na viagem, tentaram convencer-me com as suas motivações e os seus sonhos, que também tinham sido os meus, as 4.000 ilhas, percorrer Paksé de bicicleta, a gruta de sete kilometros de onde todos saiem diferentes do que quando entraram. Mas eu não quero mudar, não quero ser diferente do que sou.
E quero muito voltar para la, para o sitio onde fui feliz. Disse ao Francês que sentia que algo em mim me puxava para Muang Ngoi, outra vez. Algo forte, que vinha de dentro. E falei-lhe de pressentimentos e vontades. E ele foi buscar-me pensos higiénicos.
Acho que nos estamos a transformar naquilo que se chama um casal rodado. Temos que estar atentos, todos os cuidados são poucos.
E foi assim, hormonalmente mandados, que pela segunda vez entramos num barco demasiado cheio para subir o rio Ou, a caminho das aldeias perdidas e achadas de Muang Noi. E foi assim, que mudamos os planos de descer o Laos, atravessar o Cambodja e subir o Vietname. Como se tivéssemos um dia acordado e decidido atravessar o Tejo de barco e não pela ponte. Porque nem sempre temos fingir que é tudo muito complicado e pesado e impossivel. Porque às vezes, percebemos, que quem manda nisto tudo podemos ser nos. Isto tudo é a nossa vida. O resto não me interessa. O resto são restos.
Quando nos encontramos com pessoas que estão a viajar e a quem tinhamos falado dos nossos planos, dou a a desculpa do calor que se faz sentir no sul do Laos e do fresco que vai estar no norte do Vietname, como se fosse uma velhinha que tem medo de temperaturas acima dos 25°. Sempre é melhor, do que passar por uma esoterica primaria, que liga ao que a lua e o sangue lhe diz. Pelo menos assim, ninguém foge de nos.

Agora, para avançar no texto, sinto-me num embaraço. Eu, que não gosto que me vendam, não sei se consigo falar de Muang Ngoi, sem parecer uma agência de viagens que vos quer impingir um tour. Difícil, principalmente vindo de quem,um dia, pensou largar tudo para viver aqui. Imaginei-me habitante sedentária da aldeia à esquerda do riacho, antes da estrada começar a subir. Andar por aquela terra batida para me lavar no rio. Deixar os meus filhos à solta. Deixar o Francês ainda mais à solta. Soltar-me mais um bocadinho.
Não me lembro do nome da aldeia, mas não é por isso, que o meu projecto de mudança de vida deixa de ser credível.
Eu podia muito bem ter largado tudo e ter começado ali a viver. Os meus filhos na escola, o Francês a fazer cestos de verga na sombra da nossa casa e eu ia para a horta cavar, se é o trabalho com a terra que me apetece neste momento. Sujar as mãos, esfolar joelhos, curvar as costas, dizer-me cansada, colher para comer, depender da chuva, depender da lua. Seriamos uma família com sorte, diz-me a mãe dos três filhos, que vêem brincar com os meus. Temos um menino e uma menina, ainda por cima o menino parece-se com a mãe e a menina parece-se com o pai. Muita sorte. O mesmo não pode dizer o senhor Ha : cinco filhos homens, e a mulher não pode engravidar outra vez, o coitado, e ainda não sabe como é que vai fazer. Para que se casem, vai ter que arranjar mais kips do que lhe apetece dizer. Muitos, mesmo se convertidos em dolars. Sugiro-lhe que emigre para a Índia, onde é a família da noiva que paga o dote, ia ser um homem riquíssimo, todos os problemas transformados em soluções. Sorri-me. Vai ficar no Laos, com os seus problemas e a sua angustia. Compreendo-o. Todos queremos soluções de compromisso, fáceis de executar, algo que nos dê jeito. E lamentar também faz parte da natureza humana, nem tudo tem que mudar - às vezes, é assim porque sim. Que o que tem que ser somos nos que decidimos, nem sempre pode ser visto. E eu sei disso. Todos sabemos. Mas poucos nos lembramos.
Cinco filhos homens. Ninguém merece.
Acabamos a nossa vida em Muang Ngoi a banhos no rio Ou. Dois metros acima, duas mulheres tomam banho, shampoo, sabonete, mais acima 7 búfalos não querem sair da agua, o meu filho hesita se aceita ou não o convite de se deixar ir em cima de uma câmara de ar com três adolescentes, não quer que lhe mexam no cabelo. Eu filmo um rufia de 12 anos a cantar e a tocar bateria nas latas que encontra na areia, a minha filha faz castelos de areia, como na Costa da Caparica e o Francês admira o segundo pôr do sol do dia, ao colocar-se no sitio certo, por trás de uma montanha mais baixa. Tudo é uma questão de perspectiva. No dia seguinte, vamos ter seis horas de barco, para escolher a nossa.
Um dos laocianos que nos acompanha vai levar duas poderosas colunas de som para a sua aldeia, vai haver karaoke para todos. A morte da ultima aldeia ritmada pelo som longinquo dos macacos.
Depois do rio subimos atravessamos a fronteira para o Vietname, provavelmente cedo demais. Vamos a caminho de Sapa, para onde fomos mandados.

9.3.15

Laobeer, o dia da mulher e outras minorias no primeiro dia no Laos

Saímos do autocarro no meio da autoestrada. Do lado de fora, dois homens gritam Lao, Lao ! Dois minutos depois, o autocarro segue, com dois turistas dentro, à toa sem saber se deviam ter saído ou não. Os que tinham saído estavam com a mesma cara. A nossa cara. 50 baths. 50 baths. Imigration border ? Seguimos num tuk tuk, com um coreano e dois canadianos. It must be this.
Na fronteira, fui a que pagou mais para passar. Passaporte português oblige. Outro tuk tuk. How much for the bus station ? Alguns mil kips. Pagamos e faremos o câmbio depois, partilhamos o tuk tuk, com quem também não é forte em câmbios. It must be ok. Separamo-nos com votos de boa continuação de viagem, eles vão descer o Mékong, nos vamos subir as montanhas. Ficámos com vontade de andar e de visitar as aldeias remotas, as étnias minoritarias. Na Tailândia, havia tantos turistas, tanto comércio, tantos intermediarios, que receamos uma experiência estranha, de exploração de camponeses e turistas e grandes somas de dinheiro para quem tem bolsos grandes. Sempre os mesmos. Fomos alertados, ainda antes de começarmos a viagem, para a estranha e perversa situação das mulheres-girafa Karen. Fugiram da guerra na vizinha Myanmar e agora vêem-se sem papeis e à mercê de homens, que as transformaram na principal atracção de um parque de diversões. Ultimamente, os nossos dias têm passado a tentar adivinhar o que esta à volta de cada oferta. 
Safaris humanos. Maus tratos a elefantes, em parques que se dizem ecológicos. Esquemas e estratégias pouco claras, de quem sabe o que os turistas querem ouvir. Todos queremos ter a consciência limpa. Muitos não se importam de a sujar - há tanto dinheiro a ganhar. Como não somos mais espertos que os outros, temos dito que não. E esperamos que no Laos, consigamos ver de uma forma mais transparente. 

Chegamos à estação de autocarro duas horas antes do tempo. Vamos comer à banca mais próxima.
A musica está alta. A dança ainda mais : em cima das cadeiras, das mesas. Nesta tarde de domingo, parece que aterramos numa espécie de festa de fim-de-ano dos santos populares, onde tudo é permitido. Especialmente a liberdade dos décibeis. Temo pelo aparelho auditivo deste simpático povo. Um homem muito parecido com o Vasco Palmeirim vai mudando as musicas. com uma resposta bastante efusiva das mulheres do restaurantes. Todas as três estão delirantes. Apenas uma, continua sentada a comer a sua lao noodle soup. O sósia não se conforma, vai falar com ela, insiste, mas nada, ela está ali para comer. Não há nada a fazer. E assim como assim,estamos num restaurante. Penso que se este homem tivesse uma projecção radiofonica nacional, talvez tivesse mais sucesso e sugiro-lhe que se lance numa carreira radiofonia, acho que tem jeito. Ri-se muito e aumenta o volume. Acho que vai pensar no que lhe disse. 
Eu, no que possa ajudar a humanidade, faço o que posso.

No autocarro de sanefas cor de rosa, saidos de uma sala de uma bisavó solteira, temos que tirar os sapatos para entrar. Um jovem local, com um inglês melhor que o meu, pergunta-me de onde venho, para onde vou e porquê. E em troca das minhas respostas, pergunto-lhe o que raio se passa hoje. Responde-me que é uma grande festa, que é o dia da mulher. Estranha a pergunta e informa-me que também se festeja no meu pais. Digo-lhe que não é bem assim, que também é hoje que é o dia da mulher, mas que nem toda a gente tem vontade de dançar e beber cerveja nesse dia em particular. Acrescento que para mim até é um dia muito triste, porque me lembra que no pais de onde venho, as mulheres têm menos direitos que os homens, que ganham menos e que trabalham mais, que as tarefas domésticas são quase todas para elas, que há muita violência doméstica contras as mulheres e que nem sempre são respeitadas na rua. Olha-me com pena de mim, faço-lhe um sorriso e digo-lhe rapidamente que tenho esperança que as coisas melhorem em breve, não vá ele ter vontade de me adoptar ou coisa que o valha.

Por volta das 22h, o autocarro cor de rosa pára e julgamos ouvir o nome da paragem onde queremos sair, tentamos não pisar nos turistas que dormem no corredor e saímos sem ter a certeza que estamos a fazer bem. Acreditamos que sim, porque as nossas mochilas estão no chão. Existe muita eficácia na rodoviária asiática, parecendo que não. 
Um motorista de tuk tuk pergunta-nos onde queremos ir e diz-nos um preço. Enquanto eu faço conversa para ganhar tempo, o Francês tenta encontrar alguém que lhe diga a quantos kilometros estamos do sitio onde queremos ir. Mais uma vez, estamos no meio de uma autoestrada, com pouca escolha : 12 kilometros. Subimos para o tuk tuk e dizemos adeus a três valentes franceses que vão fazer o caminho a pé. Há lugar para nos na guest house que queríamos, pousamos as mochilas e vamos à procura de comida. No restaurante ao pé, há tantos franceses que quase nos sentimos em casa, que é algo que não queremos. Ainda só estamos longe há seis meses, ainda é muito cedo para isso. Procuramos o night bazar. Está meio fechado, vamos para a metade que está cheia. Estão todos bêbados, mas a atmosfera é amigável. Ah, as maravilhas do dia da mulher ! Tang, vai tratar de nos, chegou de Vintiane há dois dias e está muito contente por ver estrangeiros no Laos, eu memorizei bem esta frase porque a ouvi 20 vezes. Gostamos muito de Tang à primeira vista : a cozinheira não fala inglês e graças a ele conseguimos comer uma sopa menos picante do que nos estava fatalmente destinada. Tang está mesmo feliz de nos ver aqui. 21. E nos estamos felizes de o saber feliz.

O que eu gostava de saber é porque é que os outros viajantes conhecem nativos que lhes explicam a cultura do pais e lhes ensinam a falar a língua nativa, ou, a cozinhar pratos típicos e a mim calham-me simpáticos e tocados jovens que me convidam a drink one beef, one bear, one beard, one beer nas noites em que tudo o que quero é ir dormir.   
Mas não me vou começar logo a queixar, a Laobeer promete e hoje foi apenas o nosso primeiro dia, no Laos.

Pessoas

Nomadas e sedentarios